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30 março, 2011

Quando você viu seu pai pela última vez?

O título do filme gritou essa pergunta para mim na prateleira da videolocadora e, depois de um turbilhão de lembranças comprimidas em alguns segundos, eu disse a mim mesma: ok, sei que vou chorar, mas preciso ver esse filme.


Por trás da pergunta sugestiva que dá título ao filme dirigido por Anand Tucker em 2007, está a história real do poeta e crítico literário britânico Blake Morrinson e do seu pai, Arthur. E qual é a história? Após a notícia de que seu pai sofre de um câncer devastador, Blake (interpretado por Colin Firth) revê a trajetória da sua relação com o pai, um sujeito pouco convencional e por vezes politicamente incorreto, com quem viveu uma relação conturbada mas nem por isso menos amorosa.

Pequenas trapaças, piadas mal colocadas, uma amante onipresente são as coisas que, num primeiro momento, aparecem com maior relevo a respeito do cárater de Arthur (o sensacional Jim Broadbent). Porém se fosse apenas isso o personagem seria "chapado",  desenhado numa única tonalidade. Mas ao contrário, Arthur é também, e apesar das suas contradições, um homem com virtudes inquestionáveis e no qual se percebe um amor incondicional pela família e por aquele filho que nem sempre compreende em suas escolhas (por que Blake escolheu ser poeta e não médico, como pai, por exemplo).

É um filme sobre o amor, seus encontros e seus desencontros. E é também um filme que fala como o impacto da morte de um ente querido nos leva a uma viagem de volta ao passado, tanto aquele mais recente quanto o passado mais remoto. O que poderia soar como clichê num filme com essa temática é anulado diante de uma narrativa que opta por uma certa fusão entre o passado e o presente, quase uma simultaneidade entre os fatos. Daí que numa mesma cena teremos o olhar de Blake adulto, jovem e criança, numa superposição muito competente de tempo e de desdobramento de personagem. Destaque ainda para as atuações de Matthew Beard (Blake adolescente) e de Juliet Stevenson.



Fotografia e trilha sonora complementam a delicadeza desse filme que trata a morte com toda a emoção que o tema pede sem, no entanto,  se derramar no melodrama. O aspecto ao mesmo tempo reverente e corriqueiro  colocam o fato inexorável no lugar a que ele pertence, o cotidiano da vida.

O filme é tocante e a pergunta se refere à última vez em que você, espectador, viu o seu pai com toda a potencialidade de suas virtudes e defeitos.

É a pergunta que eu também faço ao leitor desse blog, se ele se sentir à vontade para responder, é claro:

Quando você viu o seu pai pela última vez?

Eu perdi o meu pai em outubro passado. E antes que ele morresse eu o vi ainda em duas ocasiões. A primeira, durante uma semana num hospital em Recife e a última vez, também pelo mesmo período de tempo, num hospital em Arcoverde. Mas a última vez em que o vi de verdade, a última vez em que ele ainda estava lá, foi quando fiquei com ele numa tarde pontuada de algumas conversas, algum silêncio,  e na qual ele me orientou em coisas práticas para o auxiliar. Ele havia saído quase que por milagre da UTI depois de uma sequência absurda de cirurgias.

Um mês depois, o pai que  vi de memória oscilante e para o qual eu disse um "eu te amo" de despedida, não era aquele pai de sempre, tão senhor de si e sempre tão forte. Era esse um pai já em caminho, já de viagem.

O pai que eu toquei no caixão, já não era, já não estava.

De tudo fica o pai que tento reconstruir com os fragmentos da memória desde então. O pai que permanece e que paradoxalmente fragmentário nem por isso é menos inteiro. Um pai quase que onipresente em tudo o que faço e às vezes me pego ouvindo na minha voz a tonalidade da voz dele.

Sinto saudades.

28 junho, 2010

Sobre morrer: Um olhar do paraíso - Primeira Parte

imagem: frame do filme Um olhar do paraíso


A literatura e o cinema, entre outras áreas de expressão artística, têm leituras muito próprias do que acontece logo depois do último suspiro. Independente de crença ou mesmo descrença não conheço ninguém que nunca tenha especulado sobre a chamada vida pós-morte, um dos mistérios fundamentais que cercam nossa existência.

Não por acaso esse tema sempre cercou meu fazer, meu pensar sobre o mundo e desde muito cedo na minha vida me incomodou que algo tão certo e inexorável fosse tão temido, tão cercado de tabus. Não que eu não tema a morte, mais as de quem eu amo do que a minha própria, mas que tenho uma certa curiosidade sobre como vai ser quando for a minha vez.

Há muito anos atrás tive um sonho perturbador. Um sonho que daria um filme, muito antes de O Sexto Sentido, Amor além da vida e de Um olhar sobre o paraíso. Sonhei que eu andava numa das avenidas principais da minha cidade preocupada com o fato de estar sendo seguida há alguns dias por um homem misterioso. Em determinado ponto do meu percurso eu me deparava com uma ruazinha estreita  e escura e ponderava que seria melhor evitar esse caminho pois ali seria uma presa fácil. Dei meia volta e segui para casa. Então, encontrei dois amigos que estavam com lágrimas nos olhos e de suas falas pude entender que algo terrível acontecera e que eles estavam indo para o mesmo destino que eu. Acompanhei-os sobressaltada e quando chegamos havia uma considerável aglomeração em torno da minha casa. Assustada com a possibilidade de algo trágico eu atropelei as pessoas até chegar em minha mãe que chorava sem consolo. Eu falava, ela não respondia. Eu perguntava e não tinha qualquer resposta. Então olhei em frente e vi meu corpo sendo velado. Só aí, numa espécie de flashback, eu entendia tudo o que havia acontecido. Eu não havia evitado a ruazinha e tinha sido estrangulada pelo homem misterioso. O percurso que eu  havia feito era o de uma alma perdida em busca de compreensão sobre o que acontecera e quando eu encontrara meus amigos eles não tinham de fato falado comigo mas sobre mim e sobre o que me acontecera.

Nunca esqueci esse sonho por ter sido ele muito nítido e cheio de sentido, e é sobre sua premissa que os filmes que citei se baseiam, ou seja, a de que morrer é entrar, nem que seja num primeiro momento, numa dimensão paralela entre essa existência e uma outra e que esses "mundos" de certo modo coexistem e se tocam ainda que imperfeitamente. Talvez isso seja uma espécie de memória arquetípica que compartilhamos, o que pode explicar que pessoas diferentes e que não se conhecem tenham pensado basicamente a mesma coisa. Não sei.

Ontem  assisti ao filme Um olhar do paraíso, apesar das críticas negativas que li  na ocasião do seu lançamento. Ver esse filme me relembrou esse sonho e as emoções que vivi (sim, vivi) no mesmo. Enfim, me pôs a pensar no imponderável e na fragilidade da vida. Em breve voltarei a falar do filme e de coisas e referências que percebi no mesmo, mas por enquanto é isso, o filme me deu o que pensar e o romance que lhe deu origem será minha próxima leitura.

08 março, 2010

O Santo, o Vestido, o Mito: A Festa da Menina Morta

 [frame do filme A Festa da Menina Morta]

O filme de estreia de Matheus Nachtergaele, A Festa da Menina Morta, pode  ser "lido" como um pequeno tratado sobre a identidade nacional. Há 20 anos uma população ribeirinha da Amazônia cultua um santo vivo  e uma relíquia de uma menina supostamente morta, um vestido rasgado, prova irrefutável do seu desaparecimento trágico. Em torno dessa morte e desse santo efeminado, que mantém uma relação incestuosa com o pai, vive o vilarejo. O santo e a menina são o motivo de existência daquele povo. A festa anual, ao modo das festas de padroeiro que movimentam tantas cidadezinhas Brasil afora, o único futuro possível para o qual caaminham aqueles homens, mulheres e crianças. Além disso, nada mais, a não ser talvez, o álcool, a cachaça, combustível para suportar uma existência sem sentido ou perspectiva.

Se vasculharmos rapidamente nosso imaginário teremos às pencas santos de devoção popular, da Menina sem Nome do Recife à Antoninho da Rocha Marmo em São Paulo; festejos em torno de uma fé cega e irracional, como a festa de Juazeiro do Padre Cícero e de Nossa Senhora Aparecid, cidades que se alimentam e prosperam em torno do misticismo e da morte em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, amém. Mas não é exatamente disso que falo quando remeto ao "conceito" de identidade nacional. O que quero dizer na verdade é que por baixo de tudo isso o brasileiro é um povo dado à fabulações e acho, opinião estritamente pessoal minha, que isso é que dá a liga das nossas relações enquanto povo. Fabulamos, inventamos, acreditamos que o real não é simplesmente o real. Talvez uma das frases prediletas do brasileiro seja aquela que diz "existe muito mais entre o céu e a terra do que imagina nossa vã filosofia".  Até porque entre a filosofia e a fabulação, ousamos preferir a segunda. Ou não?

Isso  não se configura como uma crítica ao "caráter nacional". Seria, muito mais, uma constatação e, claro, um reconhecimento. Obviamente quando se fala em identidade nacional, caráter de um povo etc, etc, há uma tendência à generalizações. Mas não quero, sinceramente, generalizar.  Podemos ser e somos Macondo e ao mesmo tempo tentamos apontar nossas antenas ao infinito. E esse me parece o grande choque entre tradição e modernidade, se é que podemos falar nela.

O filme de Nachtergaele é intenso, nervoso e pungente. E me diz, aquele é um lugar no qual já estive. E talvez me diga mais, aquele é um lugar no qual estou. E talvez me diga, ainda, aquele lugar sou eu. Com uma fotografia irretocável (e a fotografia de um filme é algo que me pega pelo coração e pela razão) e com cenas que falam mais em seu silêncio (quase ao modo de Kurosawa, eu arrisco), A Festa da Menina Morta é perfeito até nas suas imperfeições. E a mais forte delas é a trilha sonora com letras elaboradíssimas se quisessem passar mesmo por benditos e novenários populares. Não são e não passam. Pelo contrário,  são  letras extremamente "teatrais" e nisso mora uma força inesperada, pelo meu ponto de vista, pois expõem o olhar espantado do Brasil "erudito", "culto" e "artístico" perante o mundo de cabeça para baixo que é regido por questões de fé e misticismo.

Para falar em detalhes e imagens, atenção para a referência nada sutil à loucura mítica de Arthur Bispo do Rosário e à imagem de São Sebastião, o santo mais feminino do panteão católico ao meu ver, com cabeça de boneca no lugar da original.

Enfim, uma belíssima estreia.

26 julho, 2009

Só as mães são felizes...


Fui uma criança no mínimo esquisita. Com uma incomum fascinação por fantasmas, cemitérios e histórias de terror.

Minha mãe não achava graça nenhuma nisso.

Mas o que eu podia fazer? Eu era (sou) assim.

Por muito tempo achei que ninguém poderia me entender ou traduzir até que assisti ao O Estranho Mundo de Jack, de Tim Burton.

Uau!!!

Aquilo era eu, meu universo, minha estética desde criança.

Raio de criança estranha, dirão alguns. Mas o que fazer?

Não que eu fosse ou seja gótica. Não é isso. Pelo contrário. Me considero muito solar. Mas o fato é que compreendo bem a união lúdica entre infância e bizarrice.

Tudo isso é pra falar de Coraline, o filme baseado no romance de Neil Gaiman. Sim, ele, o criador de Sandman, o mestre dos sonhos, não por acaso um das minhas histórias em quadrinhos prediletas.

Coraline é uma menina que muda-se para um novo apartamento com seus pais. Sem muita atenção deles, que estão envolvidos na árdua tarefa de conquistar sucesso e sustento, a menina cerca-se de seus vizinhos excêntricos e de um menino que constantemente a irrita. Não sabe ela, porém, que a casa onde mora esconde um portal para um mundo paralelo quase igual ao seu, exceto pelos fatos de que há outros pais muito mais legais (embora tenham estranhamente botões no lugar dos olhos) e de que lá tudo pode acontecer como, por exemplo, um gato falar.

Acontece que esse mundo é uma armadilha criada pela Outra Mãe, uma figura feminina monstruosa, capaz de sugar a alma das crianças escolhidas para serem amadas por ela. E Coraline é sua próxima vítima. Ou melhor, não é, porque a menina não se deixa vitimizar. Pelo contrário, contesta, enfrenta, desconstrói o mundo e as figuras maternas tanto da mãe real quanto da Outra Mãe.

Não precisa ter lido muito sobre psicologia para comprender este confronto que está na base da nossa formação. Todos temos uma mãe real e uma mãe projetada. Toda mãe é Maria Santíssima e a Madrasta da Branca de Neve. Esta é uma das fantasias mais básicas de toda criança.

O que chama a atenção em Coraline é que apesar de a mãe real estar ausente de suas funções, ainda assim a menina a resgata e restaura a seu lugar de origem. O que parece ser um recado a todos os pais e mães que se retiram do convívio de seus filhos seja não compartilhando de suas vidas, não se interessando por suas brincadeiras, não estabelendo uma real conexão com eles ou simplesmente porque estão ocupados demais.

E esse recado é muito simples: apesar de toda fantasia sombria que seu filho crie sobre você, o que ele quer mesmo é conhecê-lo da forma mais honesta que for possível.

Outro ponto que chama a atenção são os extremos em que as duas mães se colocam. De um lado a mãe ausente demais. Do outro lado, a mãe presente demais. Em qualquer das duas atitudes o resultado pode ser devastador. Inclusive porque, em muitos casos, como no filme, a paternidade também é exercida tendo como ponto de partida o exercício do poder materno. A cena em que o Outro Pai se revela uma fantasmagoria criada pela Outra Mãe apenas para agradar Coraline é eloquente e elucidativa do quanto muitas mulheres buscam ocupar todos os espaços na vida do filho.

É assustador. E é real.


Se a ausência deprime, a onipresença sufoca. E essa é a mola mestra desse filme sombrio e delicado.

08 fevereiro, 2009

Sobre Reparação




Terminei de ler o  livro.

Confesso que sabotei a leitura, para não terminá-lo em 2 ou 3 dias. Quis aproveitar ao máximo a mistura entre técnica e talento de sir McEwan.

Alguns comentários:

- Com  relação ao filme, Desejo e Reparação, tiro o chapéu ao roteirista que soube transpor para a linguagem outra do cinema não só o esqueleto da construção narrativa do livro e seus tempos e olhares múltiplos, como também toda a, digamos, paisagem emocional que perpassa a história. Parabéns para Cristopher Hampton!!!

-Embora o filme seja magnífico e fiel, o livro é impressionante. Uma aula de como fazer o bom romance contemporâneo. Embora se possa perceber a extensão do trabalho de pesquisa empreendido pelo autor, no que diz respeito à II Guerra Mundial, às rotinas da enfermagem pós-Florence Nightigale, entre outras coisas, nada disso soa artificial, deslocado. Pelo contrário, você percebe a pesquisa, ela está posta de modo a ser percebida, como se o autor dissesse "é ficção, mas também é documento" e é isso que o torna, por incrível que pareça, mais próximo do verossimilhança.

-Como em Sábado, do mesmo autor, a metalinguagem é uma presença constante. Se naquele, a discussão girava em torno do fazer poético, em Reparação se discute as fronteiras entre vida e ficção, sua ética (se é que pode haver), os caminhos e descaminhos do romance contemporâneo.

-Algumas imagens constituem mesmo o que se chama de "metáforas poderosas". Uma delas, que atravessa a narrativa, é a da menina Briony, com seu vestido branco sujo de lama, pouco antes da sucessão dramática de eventos e erros: um prenúncio da inocência perdida para sempre, do crime que em breve vai cometer, das mãos que permanecerão, por toda a vida, sujas de sangue.

-Para um escritor não há como não compreender as atitudes de Briony. Ela é movida pela ficção e isso determina que se acredite que esta não apresenta realmente grandes diferenças da chamada vida real. Eu, por exemplo, sinto uma forte empatia pela personagem, e posso, sem dúvida, me reconhecer nela tanto na perversidade ingênua que a move, como na obsessão pela exatidão da palavra. Entretanto (e aqui voltamos a uma questão já colocada, embora não aprofundada), a vida cobra seu preço.

Enfim, recomendo sem ressalvas.



04 janeiro, 2009

Menino-Aranha

Quem viveu em Pernambuco nos anos 90 do século XX certamente há de lembrar de Tiago João, o Menino-Aranha, praticamente uma lenda urbana do Recife. João Tiago, um menino franzino (daqueles de que fala João Cabral  em seu Morte e Vida Severina) freqüentava diariamente os noticiários (e páginas policiais) por assaltar apartamentos de luxo escalando prédios de alturas vertiginosas para qualquer um, ainda mais para uma criança de 7, 8 anos. Por essas façanhas, o pequeno anti-herói ficou conhecido como Menino-Aranha.

Filho da exclusão, nascido no hospital psiquiátrico Ulysses Pernambucano, o chamado Hospital da Tamarineira, o Menino-Aranha não conhecia limites e seus assaltos, eram, invariavemente, realizados sem qualquer uso de arma. Um dia, foi encontrado morto, crivado de balas, para alívio da estrutura social que, sem querer ou saber, tanto havia contestado.

É essa história, que oscila entre o fantástico e o terrível (a exemplo de O Labirinto do Fauno), que Mariana Lacerda conta em seu documentário Menino-Aranha. Lançando mão de uma narrativa horizontal,  Tiago é "contado" pelos depoimentos  em off das pessoas que conviveram com ele e pelas imagens aéreas de uma Recife muito distante do chão, muito distante da favela e da polifonia dos becos e vielas de onde surgem, diariamente, tantos meninos e meninas desamparados e, por isso mesmo, ameaçadores da ordem e modo de vida de uma classe que esquece que sua opulência e omissão é a geradora de toda violência e contradição.

Há ainda na narrativa de Lacerda algo que chamarei de "estética da ascenção".  Tiago  é percebido como um mártir, mas não exatamente nos moldes cristãos ou da esquerda. Sim, ele sobe, diariamente, a sua cruz, que pode ter 33 andares. Sim, essa cruz pode levá-lo ao "paraíso" das instituições que oferecem pão, cobertor e abrigo nas épocas mais difíceis ou ao paraíso do status de ter seu nome estampado  nos jornais. Entretanto,  Tiago João (que, talvez, não por acaso, carregue consigo os nomes de dois apóstolos) é muito mais um mártir da liberdade pessoal, dos sonhos que se desprendem do chão, da contradição que é ser criança num mundo muito, muito feio.

Ele, se pudesse, poderia até tomar emprestada uma das frases mais conhecidas de Emília, personagem de Monteiro Lobato:

Sou a independência ou morte!



29 setembro, 2008

Paul Newman

Duas coisas me impressionaram na morte de Paul Newman.

A primeira, a própria morte. Eu acreditava que ele era um daqueles que não morrem.

A segunda é a notícia de que ele morreu aos 83 anos. Eu também acreditava que ele era um daqueles que não envelhecem nunca.

Pensando bem, lembrando Butch Cassidy, Golpe de Mestre e Estrada para Perdição, para citar apenas alguns de sua carreira, não parecem tão sem sentido essas minhas crenças.

12 setembro, 2008

Desejo e Reparação



ou "Sobre o coração cruel das crianças"

Advertência: Em geral, leio o livro e, só depois, assisto ao filme. É quase um Transtorno obssessivo-compulsivo. Não posso, sob hipótese alguma deixar de conhecer um em detrimento do outro. É como se ficasse em dívida para comigo mesmo, para com minha lucidez, compreensão. Foi assim com O Nome da Rosa, A Casa dos Espíritos, Como Água pra Chocolate, para citar apenas alguns dos livros/filmes que deram início a esse hábito há muitos e muitos anos atrás. E será assim, por exemplo, com o Ensaio sobre a Cegueira, o filme, posto que já li o monumental romance de Saramago. Será também com o Pergunte ao Pó, o filme de Robert Towne, que me recuso a assistir porque não li ainda o romance do John Fante (sim, uma falha na minha formação literária básica). Coloco tudo isso, porque ontem não resisti e assisti Desejo e Reparação (Atonement), filme de John Wright baseado no livro Reparação, do britânico Ian McEwan (no Brasil editado pela Cia das Letras). Coloco tudo isso, porque não li ainda o livro e como todo bom obssessivo-compulsivo, preciso justificar para mim e o universo o motivo de violar as regras importantes e vitais que eu mesma criei. A justificativa talvez não satisfaça aos deuses, mas a verdade pura e simples é que não resisti.

Agora, o filme:



Desejo e Reparação é um dos filmes mais incríveis que assisti nos últimos tempos. A direção de Wright conduz o espectador com segurança numa trama tão fraturada quanto um quebra-cabeças. A narrativa, por meio de rupturas, parece querer advertir que todo olhar é passível de manipulação e que essa manipulação pode ser realizada por nós mesmos, nosso preconceitos, imaginação e perversões, ou pelos outros.

Em 1935, Briony Tallis é uma menina talentosa e precoce. Num dia quente de verão, no interior da Inglaterra, ela acaba por concluir sua primeira peça teatral, a qual pretende encenar para saudar a chegada do irmão mais velho. No entanto, os primos que interpretariam os personagens se rebelam e, Briony, aborrecida, vai até a janela, onde presencia uma cena de intimidade entre sua irmã mais velha, Cecília, e Robbie Turner, o filho da empregada, ao qual sua família custeou os estudos em Cambridge. Enciumada, pois ela mesma nutria uma paixão platônica e infantil pelo rapaz, Briony parte num movimento de desconstrução/destruição do amado, movimento que, aliado a alguns mal-entendidos ao longo do dia, resultará numa mentira escabrosa capaz de destruir vidas.

Como uma uma criança onipotente e cruel que, por birra, quebra o brinquedo predileto, Briony é vítima de si mesma, de seu ciúme, da sua imaginação distorcida. E se deixa, assim, vitimizar por circunstâncias e pessoas que conduzem seu olhar entorpecido e acrítico. Briony acusa Robbie de um crime e assim, separa-o de sua irmã, num ato que continuará a ter conseqüências trágicas no futuro.

o novelo, a novela
Durante toda a sua vida, Briony (interpretada magistralmente por Saoirse Ronan, Romola Garai e Vanessa Redgrave) tentará reparar o mal cometido e aí chegamos à grande sacada dessa história, o enovelamento entre ficção e realidade, com a escrita alinhavando a trama durante todo o percurso (alinhavo que, na tela, é colocado sob a presença de letras datilografadas e pelo som das teclas, num recurso parecido com o que foi utilizado em Nome Próprio, filme de Murilo Salles).

Daí se chega à onipotência do autor e algumas questões: O real pode ser mudado pelas palavras? A escrita tem o poder de alterar os acontecimentos? Quais os limites entre realidade e ficção? Verdade e mentira são categorias irmãs da realidade e ficção? É o que atormentará Briony até o fim da vida e o que, acredito, move alguns escritores. Uma vida num livro é menor, menos verdadeira ou menos real que uma vida fora de um livro? Somos ou não somos, todos, ficção? Somos ou não passíveis de ter duas ou mais versões de nós mesmos?

Seja adentrando pelos horrores da II Guerra Mundial ou das guerras íntimas que, às vezes, travamos com a nossa consciência, o filme Desejo e Reparação se mostra uma pequena jóia do cinema contemporâneo, com um elenco afinado, um roteiro bem-acabado, uma fotografia primorosa que transita num dos aspectos que mais me encantam na arte, o jogo de claro/escuro.

É um daqueles filmes que dão vontade de rever. E assim o farei, assim que ler o livro. O próximo da minha lista. Aguardem o comentário.

01 agosto, 2007

Fora do Jogo



Seis mulheres querem ir assistir a uma partida de futebol. Mas não é qualquer partida. É a final das eliminatórias para a Copa do Mundo da Alemanha. No entanto, elas não são mulheres comuns em um país qualquer. São iranianas e no Irã as mulheres são proibidas de entrar em estádios. As que conseguem burlar a vigilância, são presas. O filme, de Jafar Panahi, narra a trajetória de seis meninas que querem muito assistir essa partida e dos policiais que as capturam. Como pano de fundo os preceitos e costumes do mundo oriental tão diversos e distantes dos nossos. O filme é leve mas põe o dedo na ferida: por que eles podem estar lá dentro e elas não?

Desobediência civil, mulheres obstinadas, futebol (a minha e a sua paixão, caro leitor) deságuam numa eqüação cujo resultado, explosivo como um coquetel molotov, ensina que o que dá pra rir, dá pra chorar.

09 maio, 2007

Cinema e Cozinha Mágica



Tenho forte predileção por filmes cujo universo é a boa comida. Talvez porque eu veja a comida como algo mágico e sagrado, talvez porque exista mesmo uma relação de alquimia entre a cozinha e algumas artes, entre elas a poesia e o cinema.

Não, não sou uma boa cozinheira. Gostaria de ser, mas não sou. Mas sei saborear a vida. Ah, isso eu sei.

Então, alguns (bons) filmes que misturam bem esses ingredientes.

Como Água para Chocolate: Li o romance. Vi o filme. Queria muito ser Tita.Ter aquele dom, imagina?!

Chocolate: Com Juliette Binoche, que aliás está muito, muito bela. Uma fábula leve.

Tomates Verdes Fritos
: Revi ontem, depois de muito tempo. Deu vontade de comer tomates verdes fritos. Talvez os faça no almoço. Ah, e uma saudade enorme de Jessica Tandy!

A Festa de Babette
: Magistral! Delicioso! Fantástico!

O Tempero da Vida
: os temperos e especiarias de Vassilis,avô de Fanis, me fazem lembrar dias da minha infância quando passava férias na mercearia do meu avô Isaías, um homem também excepcional.

E agora que parece que o inverno chegou em São Paulo, vou fazer uma turnê cinéfilo-gastronômica nas noites mais frias. Ainda há vários que não vi.

O que me recomendam? Quais os seus preferidos?

(frame do filme O Tempero da Vida)

05 março, 2007

o meu filme





Meu filme começaria com uma tomada áerea do Atlântico. De cima, se veria apenas um navio minúsculo. A câmera iria se aproximando, se aproximando, até chegar a um homem, de quem se veria só as costas e se perceberia que estava lendo um jornal muito amarrotado.

Um pouco mais de tempo. Um pouco mais de mar. O navio se aproxima de um porto. Quando o navio atraca, os passageiros descem e aquele homem também. Mas ele é o último (ou um dos últimos) e desce lentamente. Ainda não se vê o seu rosto. Mas o espectador percebe que ele olha tudo com atenção. Quando ele finalmente coloca o primeiro pé no chão, a câmera percorre seu corpo de baixo para cima até chegar em seu rosto. Sincronicamente uma voz em off diz : "Aqui o mar acaba e a terra principia ".

Quem é ele? Fernando Pessoa? Não. Ou sim. Ele é Ricardo Reis.

Só então teríamos música. Uma viola, apenas ela, chorando um fado e os passos de Ricardo Reis ecoando no Cais de Alcântara, como se apenas ele caminhasse por ali.

Meu filme seria "O Ano da Morte de Ricardo Reis", de José Saramago.

Na trilha, Bethania, Amalia Rodrigues, Cesária Évora, Madredeus, algum conjunto de guitarristas de fado.

Não pensei em atores, pois não conheço atores portugueses. Seria preciso fazer testes.

O grande desafio seria não perder a polifonia do romance. Então, penso que Camões, Eça, Borges, Camilo Pessanha (entre os tantos outros) fariam aparições durante o filme. Seriam fantasmas circulando por Lisboa, flaneurs com um brilho ou algo que os destacasse.

Outro desafio seria amarrar o viés histórico (ditaduras de Franco e Salazar, entre outras "efervescências" do mundo em 1935) e a literatura. Saramago faz isso bem. Transpor para a tela é que são elas. Acho que um realce no papel do marinheiro irmão de Lídia poderia dar conta disso. Eu o tornaria mais próximo de Reis.

Esse seria o meu filme. Não precisaria de outro, embora me agradasse refilmar vários, como "A Peste", por exemplo.

27 fevereiro, 2007

Luz, câmera, ação!



Que livro seria o seu filme? Pense num livro que você adaptaria para o cinema e dirigiria? Pode ser também algum que já foi feito.

Depois conto qual seria o meu.

Qual é o filme da sua vida?




Aquele filme que ficou gravado para sempre em sua memória? Aquele que mesmo depois da milionésima vez ainda comove com a mesma força e magia? Qual é o seu filme?

O meu, vi uma única vez e se gravou tanto em mim que por muito tempo ( e talvez, ainda hoje) achei que eu o tinha vivido, ou sonhado. Chama-se "Dodeskaden" e é dirigido por Kurosawa. Nesse filme várias histórias se cruzam numa favela em Tóquio e há uma, em especial, que me mobiliza as emoções. Um mendigo e seu filho moram dentro de um carro. O amor entre eles é visível, quase palpável, no projeto que têm em comum: a construção de uma mansão imaginária, a casa, aquele espaço de acolhimento, de que fala Bachelard:

"Alojado em toda parte, mas sem estar preso a lugar algum: essa é a divisa do sonhador de moradas. Na casa final como em minha casa real, o devaneio de habitar se vê logrado. É preciso sempre deixar aberto um devaneio de outro lugar. Então, que belo exercício para a função de habitar a casa sonhada é uma viagem de trem!"

Esse trecho, escrito por Bachelard em 1957, está em "A Poética do Espaço" e parece cair como uma luva para "Dodeskaden" (que por sinal é uma onomatopéia para o barulho de um trem). O filme foi rodado em 1970, se não me engano. Talvez Kurosawa o tenha lido, quem sabe?!

Mas, voltemos ao enredo.Todos os dias, pai e filho erguem uma parede ou acrescentam uma janela ou adicionam um detalhe ao jardim. Pai e filho são transfigurados pelo amor e pela felicidade no ato contínuo (e nunca acabado) de construir essa casa. A mansão é feita de luz e se constitui a metáfora de família mais perfeita que o cinema já nos deu, a meu ver, numa daquelas imagens maravilhosas e de um colorido tão irreal que só é possível na paleta de Kurosawa. Nunca mais revi esse filme porque ele é tão meu, tão íntimo, que acredito não precisar de outra obsessão.

E você, qual é o filme da sua vida?