26 fevereiro, 2016

Malabares às mãos: ser escritora ou escritor no Brasil


imagem: Serge Seva


O poeta pernambucano Alberto da Cunha Melo (1942-2007), em algumas das crônicas do livro Marco Zero (Cepe, 2009), chama a atenção para certas condições a que a criação literária em países como o Brasil se submete e que acabam por se tornar fatores determinantes da dedicação do autor para com sua obra, obra aqui entendida, é claro, como o projeto de arte de uma vida, ou mesmo de uma nação (Dom Quixote, para a Espanha, e A Divina Comédia, para a Itália, que o digam).

Cunha Melo elenca  as dificuldades materiais dos "escritores de formação proletária" como um dos principais impasses para aqueles autores, numa perspectiva em que ele também se insere: que entre as demandas de sobrevivência e a necessidade de investir na sua própria formação de escritor e ainda dedicar tempo à própria escrita se tornam  malabaristas com vários pratos, bolas, malabares às mãos. O velho equilíbrio entre o feijão e o sonho, diz ele, que coloca nas condições de classe os principais desafios para o escritor naqueles últimos anos do século XX.  Não há aqui determinismos, é importante ressaltar. Ou como diz Cunha Melo na crônica "O suor do poeta":

Mas tanto as condições de classe quanto as outras, favoráveis ou adversas ao exercício de escrever , não são determinantes  da boa ou da má qualidade das obras, como se pode exemplificar com um Milton, pobre e cego, escrevendo o seu "Paraíso perdido", e um Goethe, rico e saudável, escrevendo seu "Fausto".

A esse propósito, recentemente, dois fatos me chamaram a atenção. Terminando de ler o terceiro ou quarto livro do português Valter Hugo Mãe, em uma nota, o autor agradece a uma Câmara Municipal por uma casa onde ficou retirado por alguns dias a fim de terminar o romance. Peguei um outro livro de Hugo Mãe  e outro agradecimento, dessa vez à entidade diversa, pela mesma espécie de benefício. O segundo fato, uma notícia publicada em jornal, conta de uma escritora carioca radicada na Califórnia, Martha Batalha, às voltas com a publicação do seu primeiro romance, desdenhado pelas grandes editoras nacionais mas que, após o eficiente trabalho de uma grande agência literária, está sendo vendido a várias editoras da Europa.

Obviamente os dois exemplos citados acima se afastam paradoxalmente da nossa realidade. A notoriedade conquistada por Hugo Mãe certamente abre caminho para que, em Portugal, condições acessíveis de dedicação lhes sejam asseguradas (talvez não idealmente, mas de maneira eficaz). Por certo, uma conquista como essa não se faz sem algum talento e muito esforço pessoal. Entretanto, também não se faz sem um projeto político. Patrocínios como esse são ainda uma utopia no Brasil, em que editais, bolsas de residência e outros mecenatos para escritores são, não apenas raros, como os primeiros alvos de degola em tempos de crise econômica. No caso de Martha Batalha, para além de sua inserção prévia no mercado (foi editora antes de se lançar como autora) a possibilidade de um agenciamento literário com evidente poder de fogo, é realmente uma tangente a qual a grande maioria não dispõe.

Sem anteparos que garantam uma imersão exclusiva naquele que é o seu trabalho, a escrita, e sem os recursos materiais e ou profissionais que assegurem alguma notoriedade no mercado (sempre da perspectiva do talento, é bom frisar), resta ao escritor sem plumas aquela vida de equilibrista:  formar-se, enfrentar o mercado, divulgar  (e muitas vezes vender) o próprio livro, preparar mesas e palestras, sem nem sempre estar seguro de que irá receber a remuneração devida por isto, ler os clássicos (e os contemporâneos), participar de feiras, mesas e festas, sem segurança de recebimento do pro-labore acertado, tourear com as editoras e, ainda, escrever o livro,  a resenha, o prefácio, a orelha, a tese, o artigo, a matéria, a reportagem. Caso seja mulher, e caso seja mulher e com filhos, some-se a isso ainda ultrapassar os bloqueios de gênero impostos pela sociedade e mercado, e ainda dar conta da jornada tripla, aquilo que se entende como a "missão da mulher", para não falar de uma certa má vontade do status quo crítico e literário.

Superar a dispersão causada por todos esses elementos e ainda a maior ou menor dilapidação de tempo nas redes sociais (que a julgar pela queixa de muitos amigos escritores é algo a se levar em conta também) são os desafios diários do escritor na composição e dedicação à obra (esse ideal).


Por outro lado, não se trata de congelar o cotidiano, nem de esperar condições ideais ou imaginárias para o exercício de uma vida pela escrita (ou pela literatura, se assim se preferir). Escreve-se bem, mesmo em condições não favoráveis como a que vive o escritor contemporâneo em países como o Brasil (países emergentes, em crise, sob o fascismo cotidiano etc), assim sabemos. Mas se se espera que o violinista ou a ginasta ou a bailarina sejam os melhores  em suas áreas, se se persegue esse caminho porque lhes são dadas horas de treino, estudo e condições, por que não se cobrar e também construir condições práticas e políticas para isso no que diz respeito ao ofício de escritor? 

Anos atrás o movimento Literatura Urgente, capitaneado por Ademir Assunção e subescrito por outros tantos escritores, iniciava um diálogo com o Ministério da Cultura no qual uma vigorosa pauta de sugestões de políticas públicas para o fomento da literatura se delineava. Em algum momento, no entanto, o diálogo foi atravancado e nesses últimos anos a dissipação dos espaços de comunicação e embates nessa direção é evidente.

Há saída? Há solução para além da escolha diária da literatura, quer sejam os deuses ou as musas ou o relógios de ponto propícios ou não? Certamente. Mas isso passa por muitos caminhos, desde a construção de um mínimo estado de bem estar social até a criação de zonas de verdadeira interlocução entre os interessados (coisa para a qual, até agora, as redes sociais não parecem de fato contribuir). Ou seja, o caminho é longo e árduo, mas que não deveria ser em nada espantoso para quem, equilibrando-se à beira do abismo ainda se atenta aos malabares.



19 fevereiro, 2016

Por que escrever poesia?

Há algumas posições a se tomar diante do mundo em ruínas que o capitalismo oferece. Elenco, aqui, algumas delas. É possível aderir a esse projeto se colocando a serviço do mesmo incondicionalmente e sem acreditar na possibilidade ou na viabilidade de alguma  alternativa. Naturalizar o capitalismo, mesmo tendo no horizonte os efeitos catastróficos em termos pessoais, coletivos e ambientais, parece ser a melhor militância nesses casos. Uma outra possibilidade de adesão é o conformismo, atitude passiva e romântica de quem percebe os estragos que a modernidade nos legou, mas que não se sente instigado a resistir minimamente que seja. Trata-se de interiorizar o capitalismo, se adequando aos seus efeitos. Uma terceira possibilidade é resistir. E aqui há duas formas de resistência: a revolução que parte em busca de alternativas que confrontem o capitalismo à força, e a revolução que pretende fissurar, no cotidiano, os valores devastadores dessa realidade.

O fato é que o mundo e a vida estão imersos nessa máquina de aniquilações. Somos triturados diariamente nas suas engrenagens. O drama dos refugiados, de quaisquer refugiados, o drama das minorias, sejam elas quais forem, pertence a todos nós. O homem que toma remédios para conseguir dormir somos nós. A criança indígena assassinada no colo da mãe somos nós. Os adolescentes perturbados que dizimam professores e colegas nas escolas também somos nós. Somo nós não por força de uma hashtag apenas, mas porque sentimos o efeito de cada uma dessas tragédias por minimamente conectados que estejamos. O mundo humano está profundamente adoecido e sua doença se espalha ferozmente pelo planeta, seu ecossistema, suas relações. Walter Benjamin alegorizou de maneira inestimável essa tragédia:

"Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e a dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade (...) o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto um amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é chamada de progresso" (1).

Creio que o mundo é criado pela linguagem. Pela palavra. É basicamente uma crença judaico-cristã, eu sei. Mas, assim crendo, dou como certa a ideia de que é pela linguagem que o real se estabelece. Escrevo poesia porque é inaceitável este mundo legado pela máquina de aniquilações. Escrevo poesia porque resisto e a resistência é própria do movimento das células. Mas isso não é um idealismo, no sentido comum que se dá à palavra "ideal", de devaneio, de inalcançável utopia. É uma visão concreta de mundo, que talvez não pareça eficaz como a força revolucionária que pega em armas (mas que historicamente não pareceu capaz de se contrapor de forma medular ao capitalismo), mas que pretende construir aqui e agora as condições para um novo estado de coisas. É por isso que escrevo poesia. Porque esse mundo que se apresenta não é o bastante e ainda se conforma a uma pauta simultaneamente suicida e assassina. Porque acredito que seja possível o acesso a outra imaginação, a outra criação e possibilidade de vida. É por isso, portanto, que escrevo. E me parece bom que seja assim.



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(1) Sobre o Conceito da História. In: Magia e Técnica, Arte e Política. Obras escolhidas. Volume 1. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994. 

imagem | Daria Pugacheva

13 julho, 2013

Gopala




O céu sobre o mar
cintila
azul
sobre
azul: onda dança nuvem que passa.

Na pena de um pavão
uma gota
de orvalho
contém o universo inteiro.

Sidarta



Um cavalo
branco
pode ser
o silêncio
absoluto,
se assim quer o deus
que brinca
entre os cascos.

Toda estrela
que brilha e pulsa
nasce
de dentro de uma árvore.





[imagem: Tree Under the Stars, © Mark Gee 2012]

Jesus



Entre o peixe
e a pedra
o salto
prateado:
voo
irregular
das barbatanas.

No mínimo
cristal de sal
habita
um sol possível.



[imagem: Steve McCurry]

11 maio, 2013

Séries (II)

[série escrita originalmente para o Facebook]

Euanimal
[segunda parte]


Transito nessas ruas desde muito. As velhas debulham milho, lágrimas, pérolas falsas. Eu não as ajudo e elas não me olham, ou não me percebem. Eu prossigo. Sou estrangeira, repito para mim mesma.

[Fotografia de autor não identificado]






Me duplico. Estou no trem que passa e na linha de aço estendida entre dois prédios. Me duplico novamente. Meus sapatos maculam a poça d'água enquanto bebo um whisky duplo com o amigo morto. Desaprendo-me continuamente.

[Fotografia de Dianne Arbus]




 
Faço listas: balas coloridas, barbante azul, absorventes higiênicos. Os carros rugem em algum lugar. Escuto-os, distantes. Têm longos dentes, garras, escamas prateadas. Não sou uma mulher. Sou uma asa.

[ Fotografia de autor não identificado]



Tenho muitos nomes. Quando um se desgasta, utilizo outro. Sob um desses nomes amei um homem, sob esse mesmo nome amei um pássaro. O homem e o pássaro foram belos e fugazes. E o mar devora a carne das baleias com uma fome que é minha.

[Imagem:The Chocolat Donut, Fred Einaud]





Um leve desequilíbrio. As ruas são de pedras irregulares. Fecho um olho e sou a Lua. Abro os olhos e sou o Sol. Meu vestido esvoaça e acho muito justo que o vento me saúde. Tenho ânsias de rever a velha sereia de cabelos azuis, mas esta cidade me contamina.

  [Fotografia de autor não identificado]




Dói-me o pé esquerdo. É uma dor indefinida. Da última vez em que ocorreu, despi-me dessa pele e me cobri com os pelos de um animal pequeno e sagaz. Ontem um avião riscou o céu e lembrei do vizinho que morreu na guerra. Dele ficou um ruído que me acompanha, um beijo, talvez. E aquela janela me convoca à invisibilidade. 

[Fotografia de autor não conhecido]










Eu imagino. E transito por aquilo que crio. E não passo disso, de uma criação de mim mesma e da passagem que empreendo. Assim como a chuva, o caderno vermelho, a voz que, atravessando o espelho, me quebra em mil pedaços. Talvez por isso eu não tenha nenhum parentesco comigo. Nenhum laço. Talvez por isso eu consiga andar por sobre o muro de cacos sem que nenhum risque minha pele. Eu imagino. E transito pelo que crio.
[ Fotografia sem autor identificado]


Séries (II)

 [série escrita originalmente para o Facebook]

Euanimal 
[primeira parte]




Estou a um passo de mim mesma.

[Fotografia: Ben Hopper, Naked girl with mask]





Me desencontrei em dez espelhos. E a Lua é um olho sem pupila.

[Fotografia sem crédito conhecido]





 
Caio repetidamente em mim. Infinitamente me reergo.

[ Fotografia: Waiting for the Coffee by spiddy kitty, via Flickr]





A linha na qual o outro se equilibra: eis o que sou.

[Frame do filme Donnie Darko, 2001]







 
Olhos de raposa, eu escutei. Muitas vozes se confundem dentro de mim. Um dia todas serão eu mesma.

[Fotografia sem autor identificado]



Séries (I)

 [Exercícios escritos originalmente para o Facebook]

Coração



Coração

[por uma definição mais precisa]

E afinal de contas é só um músculo,
carne como carne,
muitas vezes de terceira

(mas dizem quem nem para uma sopa serve).







Coração
[por uma imprecisão realmente séria]

Quando um coração se quebra
o que dele
não se regenera?

(a cicatriz, esse poço sem fundo,
é
como se quer
um túmulo?)





 Coração
[por uma indefinição não absoluta]

Quando um coração floresce
suas raízes intumescem:
paredes inchadas
válvulas crescidas

(explode
no que se perde).



 Coração
[por uma condição indefinível]

O que da tua ausência
me define
ou me necrosa?

(Teu coração
é minha acrópole
ou minha cova?)




Coração
[por uma imprecisão definidora]

O coração é pois uma mentira
feita de veias
sangue
válvulas
e algumas feras
incendidas.

(máquina de moer
moela
estômago
o coração
essa engrenagem
é mais ácido
do que sonho?)

17 fevereiro, 2013

Vou remexer nos cadernos...

... e encontro poemas horrivelmente mutilados, poemas abortados, poemas que não conseguiram alcançar a luz, a forma final. Passo as páginas devagar, envergonhada de mim mesma, da minha incapacidade para com aqueles amontoados de palavras. São despojos antigos. Uns de vinte anos atrás. Outros mais recentes. Todos mortos. Meu primeiro pensamento é o de me livrar daquilo. Mas nunca desisto de um poema, eis minha fraqueza, minha fortaleza. Depois penso que devo avisar meus filhos para nunca pensar em publicar esses rascunhos caso um dia venha a faltar-lhes. É uma boa precaução. E, por último, revejo um poema, pego lápis, me ponho a reescrevê-lo. É um velho hábito. Rabisco. Reescrevo. Comparo. Risco. Mordo os lábios. Tento. Mais uma vez, tudo outra vez. E vou recuperando letra por letra o jeito de dançar que havia perdido, recupero a música, recupero aquele que parecia morto e daquele calhamaço, enfim, surge um poema. A palavra nova, restaurada.

Por isso não jogo nada fora. Porque não é a palavra que fracassa. No mais das vezes sou eu que em dado momento não soube descobrir seu brilho.

01 fevereiro, 2013

Diante do altar dos sacrifícios



Em memória das mulheres mortas
no campo de algodão
cantemos a semente inviolada.
Em memória de Verônica adormecida
em sua infância eterna
cantemos a casa indestrutível.
Em memória de mim
e de minha irmã
e de minha prima
e de minha amiga
que tombamos
entre o ranger dos ossos
e o assobio dos tiros
cantemos ainda.
Cantemos a memória
e a nossa antiga avó
pega a laço.
Cantemos a memória
e as unhas extirpadas
no quarto de despejo
da velha ditadura.
Cantemos a memória
essa cadela
que
[22 balas
11 perfurações à faca
àcido no rosto
carne infibulada]
não morre
não morre nunca.

19 julho, 2012

O real fragmentado


[imagem: Ana Vicente]


[ou ensaios despedaçados]

I
A pergunta que me faço sempre acerca do real: o que é o real ? Para a maioria, desconfio, há um mundo, o mundo das coisas, do cotidiano, o mundo rotineiro que pode ser ora mesquinho, ora portador de alegria. Eu tenho outra relação com isso. Não porque eu seja melhor, pois não é disso que se trata. É assim porque sou assim. Desse modo, o real para mim é feito de muitas camadas e eu as vivo ora simultaneamente, ora fatiadamente. Não entenderei nunca porque as pessoas creem que são mais reais do que Capitu, do que Riobaldo, do que Baltasar Serapião. Na verdade, a grande maioria das pessoas são menos reais que um grande personagem da literatura, tem menos interesse, menos profundidade. E isso não é algo de se lamentar. É porque é. Do mesmo modo, uma obra de arte é uma existência para além da sua forma, um grande filme ou uma grande peça de teatro é um modo que essas existências encontram de se presentificar para nós. Não, não se trata de uma metafísica. Se trata de uma multiplicidade. E é nela em que eu vivo. Hoje, todos os que leem a saga de Gregor Samsa estão apenas dando corpo para o que ele é na verdade e ele é mais do que aquilo que foi capturado no livro. Gregor Samsa sou eu. Então, não pensem nunca que essa vida é menor, ela dói, e sangra tanto quanto a sua. Só que de outro modo.


II

Luís Calixto não veria o ano 2000. Morreu sem que visse o alvorecer do novo século, mas antes disso me ensinou importantes lições sobre cultura, poesia, sobre o real mestiço de que se compõe esse Brasil latino-americano. Mestre do samba de coco da cidade de Arcoverde, em Pernambuco, Luís Calixto era um artista em ebulição lidando com a arte em sua multiplicidade de linguagens. A arte era o samba, era o improviso, era a incursão do alto no baixo, e o seu contrário, era o instrumento e o boneco que fazia com o material que estivesse à mão, o cano de pvc ou a quenga de coco. A arte era o diálogo com a alteridade. O trabalho de “continuança”, como dizia. Com ele tentei aprender a dançar e a tocar pífano. Com ele aprendi que o real tem tintas diferentes. Ele tomou pelas mãos a mim e a uma geração e ensinou algo sobre história, cultura e memória ali mesmo, na nossa cidadezinha perdida nos confins do sertão. Foi meu mestre, mestre do meu compadre Lira e dos demais componentes do extinto Cordel do Fogo Encantado, sem falar dos tantos que foram influeciados por seu trabalho agregador: as crianças dos assentamentos sem-terra, as professoras e alunos das escolas públicas, o povo, essa categoria indistinta e onipresente da qual fazemos parte você e eu. Mestre e aprendiz, Luís Calixto não teve vergonha de ensinar e tampouco de morrer aprendendo. Em seus últimos tempos de vida, se comportou serenamente perante a morte que se aproximava e da qual tinha plena consciência. Deixou o samba de coco numa segunda-feira quente de novembro de 1999, como que repetindo um dos versos que mais cantava: “Vou mimbora dessa terra segunda-feira que vem, quem não me conhece chora, quanto mais que me quer bem.’’ Seu enterro, um grande circo místico, procissão medieval sertaneja, foi acompanhado por brincantes, pernas-de-pau, tamancos de coco, palhaços sem maquiagem, numa cena digna de Fellini ou de Macondo. Na sua vida e na sua morte Lula Calixto me ensinou e me ensina que o real é outra coisa.

III
Quando a luz está acesa, perdemos o escuro. Transitar entre essas duas categorias talvez seja conseguir viver no real exato. Mas quem o consegue? Trabalho perseguindo esse real que habita o lado A e o lado B e creio que esse é todo o trabalho da arte, ou seja, conseguir dizer que uma coisa é uma totalidade, que um objeto é a soma de tudo o que se sabe e se diz sobre ele e de tudo o que não foi dito e não se sabe. Que a soma entre o vazio e o infinito é, ao mesmo tempo, imponderável e concreta. E mais uma vez recorro a uma imagem que para mim traduz essa tensão: “Hoje vemos em espelho, mas chegará o dia em que veremos face a face. Hoje conheço em parte, mas então conhecerei como sou conhecido”. Há quem me diga que esse paradigma do real e das coisas dentro do real foi superado pela urgência do virtual, pela simultaneidade exigente do virtual. Sem querer ser simplista repito que com a luz acesa perdemos a possibilidade da escuridão, os acessos que a escuridão oferece, outra verdade.

IV
Tenho certamente cerca de cinco mil fotografias armazenadas em discos, Hds e outros suportes para além do papel. É um número aproximado, obviamente não me dei e nem me darei ao trabalho de contar. Até uns dez anos atrás, pelo menos, esse número não ultrapassava três dígitos. Somos, é certo, seres da imagem e para a imagem. A imagem é o nosso verbo e para traduzir seu impacto inventamos a palavra. Barthes em seu A Câmara Clara relaciona a fotografia à morte. Diz ele: “os outros – o Outro –desapropriam-me de mim mesmo, fazendo de mim com ferocidade um objeto, mantêm-me à mercê, à disposição, arrumado em um fichário, preparado para todas as trucagens sutis”. Barthes não viveria para conhecer os truques por vezes torpes do photoshop e o reinado lascivo das máquinas digitais, reprodutoras em larga escala de tudo o que pode ser visto sob todos os ângulos, sob todas as luzes. Essas imagens congeladas, as fotografias (e sobretudo as digitais), têm, ao meu ver, uma retórica própria e polifônica. Falam da morte, é certo, falam do medo da morte e do terror do desaparecimento, do esquecimento, da desmemória. Mas falam também de uma incapacidade de fixação do real. Assim se torna necessário o ato de congelar o real, de tranformá-lo em ídolo, em imagem, para tentar apreender sua totalidade. Mas esse é um trabalho prometéico: o real não é aquilo, não está lá, o real é uma ausência travestida de presença. A voracidade com que produzimos imagens, especialmente com o advento da máquina digital, fala ainda de nossa incapacidade de viver no real determinado pelo pensamento linear ocidental. Essa linearidade cartesiana nos arranca a possibilidade da vida ficcionalizada. A fotografia nos devolve a ficção que nos é extirpada e nos reinventa como personagens de nós mesmos. Fotografar é também escrever a nós mesmos e aos outros.