10 Dezembro, 2011

Os livros de 2011

Quais o melhor ou os melhores livros que você leu em 2011?

Eu elegi cinco (até aqui, pois espero ler ainda dois até o dia 31).

1. o remorso de baltasar serapião, de valter hugo mãe
2. Poemas, de Wislawa Szymborska
3. Não sou ninguém, de Emily Dickinson (tradução de Augusto de Campos)
4. Saber o sol do esquecimento, de Casé Lontra Marques
5. A letra e a voz, de Paul Zumthor

Sustenido



A boneca mora
na casa construída
pelo sonho da menina.
A menina (morta)
habita
o sonho
a casa
e a boneca
que agora a determinam.

Num coração
duas palavras escritas
e ao amor
todas as concessões
que se permitam.

09 Dezembro, 2011

João Alexandre Barbosa

Tive alguns privilégios na vida até agora. Dois deles envolvem a mesma pessoa, João Alexandre Barbosa. João Alexandre prefaciou meu primeiro livro,  Geografia Íntima do Deserto. João Alexandre foi professor convidado para a minha banca de qualificação no mestrado. Infelizmente faleceu antes da minha defesa. E era uma pessoa incrivelmente generosa. Tive algumas tardes memoráveis na biblioteca de João. As conversas eram longas, mas mal me dava conta da passagem do tempo. Invariavelmente eu saía de sua casa com um livro novo debaixo do braço. Planejamos uma vez um passeio que nunca chegou a acontecer, um roteiro pelos sebos de São Paulo.

27 Setembro, 2011

Trajeto (poema em processo)




Maçã.
Velhos que se falam

em
uma língua incompreensível.
Três quilômetros de paredes descascadas:
Outra cidade.

Palavras.
A casa rosa
com platibanda branca
,

.

o

O
rio prenhe de embalagens coloridaslixo,.

O
meu pai
me acenando noutra plataforma.

Poema.
A lembrança do poema,
o reconhecimento do poema
,
a sua perda.

Velocidade em espiral
:
perfume barato
,
a casa rosa
,
crianças brincando num quintal
,

camiseta vermelha
a minha vida num quadrado mágico.

Velocidade em espiral
:
a língua
dissoluta

,
o filho morto da minha avó
na próxima estação
,

a minha avó,
arames farpados nos muros
como trepadeiras

(o

o
burburinho do trem).

Poema.
O cheiro do poema.
O poema sujo de carne.
O vidro embaçado
do poema
.
Seus nervos expostos.



Poema.
Uma caixa de madeira ordinária

coberta

forrada
de flores
e tecido de algodão.

A

Uma
fotografia de alguém
que parece ser eu.
Tijolos vermelhos e brancos.

Velocidade descendente
.

:
O amigo sem
o
nó na garganta
,
o amigo luminoso horas antes
,
o amigo dançando na memória.

Velocidade descendente
:

.
A sua pele sobre a minha pele
,
os seus cabelos alinhavados aos meus
,
a cicatriz me atravessando.

O poema.
A voz inequívoca do poema.
O gosto de sêmen do poema.
O ritmo
a perda
do poema
.

O meu avô na outra margem.

O meu pai na outra margem.

Eu.
A cidade cinza

contra
o verde quase impossível
.

a

A
mulher grávida
andando por sobre o lixão
.

a

A
lua,como o sorriso doe um gato.

Aceleração contínua.
Velocidade em espiral.
Talvez eu na próxima parada,

Vi

vi
são do último trem subindo ao céu
num livro muito velho.

Aceleração.

Desaceleração.


Repouso

Tudo parando
.

Cuidado com o vão entre o trem e a plataforma.

06 Setembro, 2011

Encontros de Interrogação

Mais de 50 escritores brasileiros se encontram a partir de amanhã na sétima edição do Encontros de Interrogação. Lygia Fagundes Telles, Marcelino Freire, Claudio Daniel e Claudia Roquette-Pinto, entre outros. Imperdível

Eu também estarei presente!

Sexta, dia 09 de setembro

16h30 Quais São os Limites entre a Biografia e a Ficção?
 com Micheliny Verunschk, Miguel Sanchez Neto e Tatiana Salem Levy 
mediação Claudia Nina
Quando o que se deseja é a confissão, como fazer isso o mais literariamente possível? Quais são os limites entre o que é ficcional e o que é biográfico? O que é autoficção?


Programação completa, clique aqui.

12 Agosto, 2011

Barbárie: Em Londres, nas ruas do Brasil, nos Paquistões do mundo



Não sei se sou alarmista ou pessimista. Possivelmente nem uma coisa nem outra. No entanto ao assistir por 10 minutos qualquer noticiário que seja me convenço que o mundo se torna cada vez mais um lugar perigoso para todas as espécies, sobretudo a humana.

Barbárie, eu sei, sempre existiu desde que o mundo é mundo, desde que o primeiro hominídeo rachou a cabeça do outro por futilidade, raiva, inveja, o que seja.

Os recentes conflitos em Londres me espantam não por serem em Londres, não por acontecerem num país de "primeiro mundo", mas por alguns depoimentos de jovens que dizem "não saber o que os motivou a depredar, roubar, matar". Não, não creio que isso seja fruto apenas de uma força irracional e primitiva e acredito que há motivos muitos fortes pelo qual o Estado quer se eximir. Jovens estrangeiros oprimidos, sem um Estado que os valha, falta de perspectiva, preconceito, racismo. Acho que isso já ferve o caldeirão, ou não? Mas penso que a falta de politização desses jovens, a alienação em que nossas gerações mais recentes vivem engrossa o caldo e ainda é responsável por esse "desconhecimento"das causas que levam a matar, depredar, roubar. Há poucos anos atrás  em São Paulo, a Avenida Paulista viveu distúrbios parecidos (mas em menor extensão de tempo e danos) devido a uma mal-sucedida partida de futebol...

Por falar em Brasil, aquilo que chamo caretização da sociedade e, sobretudo da juventude brasileira, me preocupa. No país da piada pronta tudo é motivo de um certo riso desdenhoso e perverso, basta ver o sucesso que fazem programas de TV como o CQC e seus côngeneres. Mas o que podemos esperar de um país onde a burrice e a arrogância são exaltadas? Onde ser celebridade é um dos mais altos ideais? A nação do "povo cordial" tem escancarado seu preconceito, despeito e desrespeito pelas minorias. A nação do "povo cordial" me parece cada vez mais afundada na intolerância e hipocrisia.

O historiador Eric Hobsbawm no ensaio Barbárie: Manual do Usuário faz uma análise profunda desse mal que vem se alastrando sobretudo a partir do século XX. Em certo ponto ele diz que o que herdamos da moral dos anos 1970 foi a ideia de que a barbárie é mais eficaz que a civilização. E ainda:

"Sob tais circunstâncias de desintegração e política, devemos esperar, em todo caso, um declínio na civilidade  e um crescimento na bárbarie. Entretanto, o que torna as coisas piores, o que sem dúvida as tornarea piores no futuro, é o constante desmantelamento das defesas que a civilização do Iluminismo havia erigido contra a barbárie (...). O pior é que passamos a nos habituar ao desumano. Aprendemos a tolerar o intolerável".

Que se matem civis desarmados, que se arranquem os dedos dos inimigos para colecionar, que se matem  mulheres e se dêem aos cães os seus restos mortais, que se matem crianças de fome, de guerra, de pervesão, que se matem os negros por serem negros, os homossexuais por querer amar.

São essas as bandeiras do nosso tempo? É essa a herança que deixaremos?

Já vivemos isso antes. Já vimos como os totalitarismos se aproveitam dessa sanha ignorante. Não é possível que deixaremos tudo acontecer novamente.

02 Julho, 2011

Trabalhando

Estou a pensar em Baltasar Serapião. A pensar em Valter Hugo Mãe. A pensar na minha prosa. E no título do meu novo romance, aquele que comecei, parei, recomecei e só pegarei de novo quando passar o turbilhão de rever o outro, o supostamente terminado. Enfim, o novo romance há de se chamar (ao menos provisoriamente) "O Amor, esse obstáculo".