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09 dezembro, 2011

João Alexandre Barbosa

Tive alguns privilégios na vida até agora. Dois deles envolvem a mesma pessoa, João Alexandre Barbosa. João Alexandre prefaciou meu primeiro livro,  Geografia Íntima do Deserto. João Alexandre foi professor convidado para a minha banca de qualificação no mestrado. Infelizmente faleceu antes da minha defesa. E era uma pessoa incrivelmente generosa. Tive algumas tardes memoráveis na biblioteca de João. As conversas eram longas, mas mal me dava conta da passagem do tempo. Invariavelmente eu saía de sua casa com um livro novo debaixo do braço. Planejamos uma vez um passeio que nunca chegou a acontecer, um roteiro pelos sebos de São Paulo.

02 julho, 2011

Trabalhando

Estou a pensar em Baltasar Serapião. A pensar em Valter Hugo Mãe. A pensar na minha prosa. E no título do meu novo romance, aquele que comecei, parei, recomecei e só pegarei de novo quando passar o turbilhão de rever o outro, o supostamente terminado. Enfim, o novo romance há de se chamar (ao menos provisoriamente) "O Amor, esse obstáculo".

03 junho, 2011

A mulher que queria ser Micheliny Verunschk

Queridos amigos, há um tempo atrás o escritor Wilson Freire tomou meu nome emprestado e o cedeu a uma personagem que me conquistou de cara. Amanhã é o lançamento do livro dele que se chama (o que me deixa toda, toda, me sentindo assim John Malkovich, sabem?) "A mulher que queria ser Micheliny Verunschk". Espero encontrá-los lá.



Aliás, o livro é uma das crias da Edith, coletivo editorial muito bacana do qual participa o querido Marcelino Freire. Tem um montão de lançamentos amanhã...


E, mais, tem podcast de três capítulos do livro nesse link aqui.

Lá: Centro Cultural b_arco
Rua Dr Virgilio de Carvalho Pinto, 426
das 18 às 21h

11 março, 2011

Precisava de um poema para não morrer


1. Do princípio das coisas - Gostaria de começar esse texto dizendo: “Fui amiga de Elizabeth Bishop, trocávamos cartas. Algumas das três mil cartas que deixou, eram endereçadas a mim”. Mas, por um desses lapsos do tempo e do destino, quando eu nasci ela já havia completado 61 anos e quando ela morreu eu ainda nem pensava que seria meu o ofício da poesia...

Quer continuar lendo?

Clique em Suplemento Pernambuco.

27 abril, 2010

Literatura e Magia



[por Clarice Lispector]

Tenho pouco a dizer para uma platéia exigente. Mas vou dizer uma coisa: para mim, o que quer que exista, existe por algum tipo de mágica. Além disso, os fenômenos naturais são mais mágicos do que os sobrenaturais. Dois meses atrás aconteceu uma coisa comigo que chego a estremecer, só de pensar. Eu estava angustiada, sozinha, sem perspectiva nenhuma, vocês sabem como é. Quando de repente, sem nenhum aviso, uma chuvarada, seguida por uma ventania, começou a cair. Essa chuva súbita me liberou, liberou toda a minha energia, trouxe calma e me deixou tão relaxada que logo depois dormi profundamente, aliviada. A chuva e eu, nós duas tivemos um relacionamento mágico. No dia seguinte li no jornal, para surpresa minha, que a chuva que tinha me afetado como magia branca, afetara outras pessoas como magia negra. As reportagens diziam que tinha sido uma chuva muito forte, com granizo em alguns lugares, que tinha destelhado muitas casas, que quase provocara a queda de um avião.

Também considero mágico o sol inexplicável que aquece todo o meu corpo. Mágico também é o fato de termos inventado Deus e que, por milagre, Ele existe. Eu mesma, pelo menos conscientemente, jamais lidei diretamente com mágica. No entanto, pintei um quadro, e uma amiga me aconselhou a não olhar para ele, pois poderia me fazer mal. Concordei. No quadro, que chamei de “Terror”, arranquei de mim, talvez através da magia, todo o horror que um ser sente no mundo. A tela era pintada de preto, quase no centro havia uma terrível mancha amarelo escuro, e dentro dessa mancha algo vermelho, preto e amarelo vivo. Parecia uma mariposa sem dentes querendo gritar, sem conseguir. Perto da massa amarela, por cima do preto, pintei dois pontos completamente brancos que talvez fossem a promessa do alívio futuro. Olhar para esse quadro me faz mal.

Não acredito em nada. Ao mesmo tempo acredito em tudo. No dia primeiro de janeiro de 1974 estava parada nos degraus de uma escada perto da casa de um amigo, à espera dele. Fazia muito calor e tudo parecia deserto. Era um feriado e de repente fiquei completamente desesperada, sem perspectiva nenhuma. Cobri o rosto com as mãos e pensei: Por favor, meu Deus, mande-me pelo menos algum símbolo de paz. Então abri os olhos e um minuto depois vi dois pombos perto de mim. Fiquei surpresa e um pouco assustada. Logo depois fomos ao cinema, meu amigo e eu. Perto do cinema havia uma loja fechada, porque era feriado, e vi através da vitrine uma espécie de pote com quatro pombos dentro. No dia seguinte fui até aquela loja e comprei o enfeite de porcelana. No outro dia uma pequena pena de pombo caiu em cima de mim. Eu a perdi. E o episódio com o pássaro aconteceu de forma dramática. Era mais uma vez um dia muito quente e eu estava completamente exausta. Voltava do centro da cidade num táxi. Usava óculos escuros. E tão cansada que apoiei a cabeça no braço, tentando descansar um pouco. Então senti alguma coisa me incomodando, entre a lente dos óculos e o meu olho esquerdo. Tirei os óculos e achei uma pena de pombo. Sem comentários. Dois dias depois fui consultar um médico amigo meu e novamente peguei um táxi. O motorista freou de repente. Perguntei para ele, o que houve? Ele respondeu, quase matei um pombo, mas graças a Deus, ele escapou. Cheguei ao consultório do meu amigo e contei para ele aquela história dos pombos desde o início. E perguntei, qual o significado dessas coisas estranhas? Ele respondeu sorrindo, coisas boas não precisam de explicação. E disse mais, quer que eu lhe dê uma pena de pombo? Eu disse, claro que sim, se tiver uma. Ele se abaixou, pegou uma pena no chão e me deu. Ainda sem comentários.

Um dia aconteceu outra coisa com um amigo meu. Ele tinha um lindo curió, pássaro raro de se encontrar no Rio, especialmente em Copacabana. Uma manhã, quando foi alimentá-lo, viu com tristeza que o curió tinha morrido. Não havia nada que pudesse fazer além de lamentar a morte do passarinho. Uma hora depois a empregada gritou, vem cá depressa, vem ver uma coisa. Todos foram para os fundos da casa e viram, tremendo um pouco, no chão, um curió. O passarinho não tentou escapar e foi posto na gaiola. Comeu e começou a cantar. Eu pergunto, por quê? Para quê? Também não existe resposta para o fato de haver, numa pequena semente, numa simples semente de árvore, essa promessa de vida, o fenômeno de uma semente que contém vida é totalmente impossível. Um escritor brasileiro disse que estar vivo é impossível, e eu acrescento que nascer é impossível.

E para terminar, direi uma coisa que pode parecer absurda, porque o que vou dizer é alta matemática, mágica pura. A mágica em relação ao que se escreve chama atenção para a palavra “inspiração”. Como explicar a inspiração? Às vezes, no meio da noite, dormindo um sono profundo, eu acordo de repente, anoto uma frase cheia de palavras novas, depois volto a dormir como se nada tivesse acontecido. Escrever, e falo de escrever de verdade, é completamente mágico. As palavras vêm de lugares tão distantes dentro de mim que parecem ter sido pensadas por desconhecidos, e não por mim mesma. Os críticos consideram que escrevo o que chamam de “realismo mágico”. E um crítico, não me lembro de qual país da América Latina, escreveu sobre mim: ela não é escritora, é uma bruxa.

E agora quero ouvir o que vocês sabem sobre bruxaria.

(Discurso proferido no I Congresso Mundial de Bruxaria, Bogotá, 1975, via site Clarice Lispector)

25 abril, 2010

Por aí...

Leia os meus poemas de A Cartografia da Noite em Cantar a Pele de Lontra, blog de Claudio Daniel.

Leia a reportagem que fiz sobre as relações entre arte, vida e alta costura em Um flerte de longa data, na Revista Continuum, do Itaú Cultural.

Hum, é pouquinho mas dá  pra divertir...

24 abril, 2010

Por delicadeza eu perdi a vida









Eu tinha cerca de 25 anos quando li Rimbaud pela primeira vez. Fiquei impressionada com a força dos seus versos, com a intensidade das suas imagens, com sua proposta de poesia como um total desregramento dos sentidos. Fiquei impressionada, lembro, principalmente com sua "paleta de cores".

Rimbaud era uma criança terrível, como todos os anjos são terríveis (parodiando Rilke)e criou uma das obras mais densas e de maior vanguarda de todos os tempos em poesia.

Toda sua obra foi composta entre os 15 e 18 anos de idade e foi com essa obra que incediou Paris, o poeta Verlaine e o mundo até hoje.

Morreu com a idade que tenho hoje, depois de ter abandonado a poesia e levado uma vida adulta obscura.

Na semana em que se divulgou uma nova foto de Rimbaud (na primeira foto, ele é o segundo da esquerda para a direita) coincidentemente estou relendo sua obra e de novo me apaixonando por suas cores e mais uma vez me admirando com seu Barco Bêbado, com suas Vogais, com a sua Venus Anadyomene.

A propósito, continuo preferindo o jovem Rimbaud, sua biografia transgressora, sua atitude. O Rimbaud adulto não me interessa a não ser, talvez, pelo que tem de trágico.

22 março, 2010

Palavra e alimento


 [imagem de O Amarelo e a Cor Vermelha, de A Teta Literária]

Lindo, lindo, lindo!

Não encontro palavra melhor para definir o Teta Literária, novo blog da Paula Schuabb.

Delicioso!

Pra combinar com a ideia: "palavras são um alimento nutritivo para a imaginação".

Histórias para crianças de todas as idades.

Aproveitem!!!

09 janeiro, 2010

Desafio


O abecedário acima é composto por personagens da literatura. Ainda não descobri todos os personagens (é bem difícil), por isso estou contando com a ajuda de vocês... Alguém se habilita? É só clicar na imagem para ampliar.

A-Alice
B-Cyrano de Bergerac
C-Capitão Nemo
H-Huckberry Finn
M-Três Mosqueteiros (Ana Dundes)
S-Sherlock Holmes

[imagem do livro La lettre et l'image, de Massin. Esse desafio foi proposto originalmente no Librosfera.]

08 dezembro, 2009

Sobre escrita, sobre influências

[respondendo ao Geraldo e ao Braz e agradecendo aos dois por "inspirar" essa quase profissão de fé]

Acho difícil escrever sobre o nosso tempo com, digamos, algo que chamarei de linguagem padrão do nosso tempo. Acho complicado escrever uma prosa recheada de gírias e maneirismos para me dizer contemporânea. Não sei se isso é bom ou se isso é ruim, se é um valor ou se é uma desgraça. Sei que sou poeta e prezo muitíssimo cada palavra seja na minha poesia seja nessa prosa recém-inaugurada. Assim, confesso, costumo lixar as palavras, polir as frases, lustrar períodos e parágrafos. Não sei ser de outro modo e acho que nem gostaria.

A palavra é minha matéria-prima, meu bloco de mármore, minha madeira para carpintaria. Trato-a com respeito, mas sem reverência, sem vergonha. Se não for assim não consigo chegar aos pés da minha ambição que é o de construir mundos, dar novos sentidos ao real. Para conseguir isso preciso acreditar que cada palavra, cada espaço em branco, cada vírgula está no exato lugar onde deve estar.

Assim, tenho minhas influências e não as nego, nem poderia. Para citar algumas, João Cabral, Osman Lins, Sophia de Mello Breynner Andresen, Ezra Pound, Saramago. Mas são tantas que, de fato não poderia enumerar. Algumas mais antigas, outras mais recentes como Sebald. Sou uma antena, tenho raízes caminhantes e a palavra me encanta.


Como me foi pedido, falarei um pouco de Osman Lins, este que representou um grande encontro em minha vida. Ou reencontro. Já havia lido outras coisas suas, mas depois de Avalovara resolvi que queria escrever com mais afinco romances, novelas, essa coisa de "prosear". Ele tem me dado régua e compasso nessa nova vertente do ofício. É um mestre, um grande escritor, que como ninguém dominava os labirintos da narrativa de fôlego. Por isso, ele é meu Pastor e nada me faltará...

(perdão pela demora, minha vida está um pequeno caos em busca de organização, mas sem perder o bom-humor, porque ele há que ser uma bússola)

09 novembro, 2009

Galiléia

Confesso que li o romance de Ronaldo Correia de Brito motivada pelo prêmio que ganhou. Já o conhecia de outras narrativas, O Baile do Menino Deus e alguns contos em suplementos pernambucanos, por exemplo. No fim, a motivação pouco interessa porque o importante é que li e achei o livro fantástico.

A tensão entre o sertão arcaico e a contemporaneidade se revela numa viagem que três homens fazem para acompanhar a partida do patriarca da família, Raimundo Caetano. Eles devem chegar à Galiléia, a fazenda do avô, o local da infância, o baú de conflitos, uma terra prometida sem rios de leite e mel que guarda segredos de traições, mentiras, assassinatos, incestos, e outras misérias humanas.

A narrativa, em primeira pessoa, é feita por Adonias, médico residente em Recife, personagem angustiado, oscilante entre seus desejos e os sentimentos de fracasso de uma personalidade depressiva. Os primos que o acompanham são Ismael, neto bastardo de Raimundo Caetano, descendente dos índios Kanela, e Davi, músico erudito, meio-irmão de Ismael, sobre quem paira um terrível (e surpreendente) segredo familiar.

Os três sabem do mundo além das fronteiras da Galiléia. O mundo tecnológico e polifônico em que vivemos cruza-se com o sertão dos Inhamuns, no Ceará, com a Grécia Antiga, com o Existencialismo de Camus, o pessimismo de Cioran, a batida do Radiohead.

A Galiléia sabe de si mesma, de sua genealogia, de sua monumentalidade bíblica.

À carne de Raimundo Caetano se decompondo e empesteando o ar se juntam as imagens da infância perdida nas boléias de caminhão de postos de gasolina de beira de estrada.

A biblioteca do tio Salomão é uma metáfora para a morte auto-referente e suicida de um Nordeste preso à heráldicas, às apologias de si mesmo e de um pretenso passado glorioso.

Para usar uma linguagem banal, o livro é de tirar o fõlego. Crueza, homoerotismo, crítica social (sem panfletarismo) se agregamm num trabalho em que imagens e palavras se cruzam com precisão.

O capítulo final (que eu deveria dizer cena, já que o romance é um dos mais cinematográficos dos que li ultimamente) é impressionante. Apesar de me remeter ao menino Josué, perdido numa sala de ex-votos no filme Central do Brasil, me comove pelo que tem de suspense e suspensão.

Um romance mais que irrepreensível, necessário.

18 junho, 2009

um exercício de poesia

a propósito de um poema de Jacques Prèvert...


e aqui, o poema:

Deux et deux quatre
quatre et quatre huit
huit et huit font seize...
Répétez! dit le maître
Deux et deux quatre
quatre et quatre huit
huit et huit font seize.
Mais voilà l'oiseau-lyre qui passe dans le ciel
l'enfant le voit
l'enfant l'entend
l'enfant l'appelle:
Sauve-moi joue avec moi oiseau!
Alors l'oiseau descend
et joue avec l'enfant
Deux et deux quatre...
Répétez! dit le maître
et l'enfant joue
l'oiseau joue avec lui...
Quatre et quatre huit
huit et huit font seize
et seize et seize qu'est-ce qu'ils font?
Ils ne font rien seize et seize
et surtout pas trente-deux de toute façon
et ils s'en vont.
Et l'enfant a caché l'oiseau dans son pupitre
et tous les enfants entendent sa chanson
et tous les enfants entendent la musique
et huit et huit à leur tour s'en vont
et quatre et quatre et deux et deux
à leur tour fichent le camp
et un et un ne font ni une ni deux
un à un s'en vont également.
Et l'oiseau-lyre joue
et l'enfant chante
et le professeur crie:
Quand vous aurez fini de faire le pitre!
Mais tous les autres enfants écoutent la musique
et les murs de la classe s'écroulent tranquillement
Et les vitres redeviennent sable
l'encre redevient eau
les pupitres redeviennent arbres
la craie redevient falaise
le porte-plume redevient oiseau.

17 junho, 2009

Em tempo- I

De hoje até o dia 21 de junho, estarei fazendo a abertura do Antídoto, Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito, no Instituto Itaú Cultural.

O Antídoto é uma ação conjunta do IC com o grupo AfroReggae e discute temas mais que pertinentes, urgentes nesse nosso conturbado século XXI.

Durante esses cinco dias lerei o texto África e Sertão - à Maneira de um Manifesto.

Na programação, entre outras coisas, o espetáculo Mercadorias e Futuros, do meu compadre Lirinha e a peça Mulher Asfalto, da atriz e diretora moçambicana Lucrécia Paco.

Para quem está na terra da garoa é programa obrigatório, sim?

Para ler o Manifesto e espiar a programação completa, clique aqui.

Em tempo- II

A revista Diversos Afins convidou e eu aceitei. Esse mês tem uma leva de poemas meus nessa revista interessantíssima e instigante. Acompanhem!

Para ler a Diversos Afins, clique aqui.

Em tempo- III

Para quem não sabe, sou uma das apaixonada nacionais por futebol, embora meu time do coração, o Santinha, quase me faça infartar.

A revista eletrônica Gol de Letras convidou e eu aceitei. Tem um conto meu sobre futebol na revista.

Para ler Um a Um, clique aqui.

Em tempo-IV

Sei que estou atrasada na postagem de todas essas novidades. Peço perdão. Pra quem não sabe, estou com mais um bebê na minha vida, que ficou muito mais emocionante do que já era.

08 junho, 2009

Platão estava certo...




os poetas são uma ameaça à República e à ordem estabelecida, a julgar pela recente caça às bruxas que retirou das bibliotecas escolares de São Paulo obras de Manoel de Barros, Tim Burton, e ainda uma coletânea que escandalizou as professorinhas por conta de um poema de Joca Reiners Terron.

Seguindo São Paulo, a secretaria de educação de Santa Catarina retirou de suas estantes o romance Aventuras Provisórias, de Cristovão Tezza.

Erotismo, incitação a violência e pornografia são algumas das justificativas que os governos dão para o recolhimentos dos livros.

Ora! Se os maiores motivos são esses, que tal recolher 98% da literatura ocidental dos últimos séculos? Poderíamos começar pela Bíblia, com aquele amontoados de traições, infidelidades, estupros, fratricídios, entre outros maus exemplos para a juventude.

Poderíamos também fazer grandes fogueiras em praças públicas com os livros de Jorge Amado, Hilda Hilst, Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz, só para citar alguns dos maus elementos nacionais.

Poderíamos até incluir esse espetáculo como atração da Virada Cultural. Poderia se chamar Queimada Cultural, à falta de criatividade para um nome melhor ou menos autoreferente.

Enfim, poderíamos feito patinhos otários cair na boca do grande crocodilo e queimar dinheiro público esturricando poetas e prosadores, sem distinção, pois, com certeza isso dá muito menos trabalho que EDUCAR.

Educar professores e técnicos em educação analfabetos funcionais que leem mas não sabem contextualizar e menos ainda transpor os frutos da experiência literária para a sala de aula.

Educar crianças e adolescentes de modo a se tornarem leitores críticos e poderosos.

EDUCAR a sociedade para a leitura do mundo ao seu redor.

Enquanto a grande queimada não vem, continuemos a prensar livros que ensinam que letra de música popular é poesia e a nos lamentar pelo baixo nível cultural do brasileiro. Continuemos a nos pautar pela Veja e similares como bússola do ideario nacional. Continuemos a dar uma educação carne de terceira para nossas crianças e jovens. Pois é sempre mais fácil ter medo da literatura do que das manchetes dos grandes jornais.

De minha parte, que fui apresentada ao mundo das tensões, tesões e contradições da alma humana pelas mãos da minha mãe que leu Dom Casmurro para mim quando eu tinha entre 9 e 10 anos de idade, dou vivas ao Marquês de Sade!

E viva eu e viva tu e viva o rabo do tatu, não é mesmo?!

Abaixo, o poema de Joca e links para mais notícias sobre essa estupidez.


Manual de auto-ajuda para supervilões

Ao nascer, aproveite seu próprio umbigo e estrangule toda a equipe médica.
É melhor não deixar testemunhas.

Não vá se entusiasmar e matar sua mãe.
Até mesmo supervilões precisam ter mães.

Se recuse a mamar no peito. Isso amolece qualquer um.

Não tenha pai. Um supervilão nunca tem pai.

Afogue repetidas vezes seu patinho de borracha na banheira,
assim sua técnica evoluirá.
Não se preocupe. Patos abundam por aí.

Escolha bem seu nome. Maurício, por exemplo.

Ou Malcolm.

Evite desde o início os bem intencionados. Eles são super-chatos.

Deixe os idiotas uivarem. Eles sempre uivam, mesmo quando não
podem mais abrir a boca.

Odeie. Assim, por esporte.
E torça por time nenhum.

Aprenda a cantar samba, rap e jogar dama. Pode ser muito útil na cadeia.
Principalmente brincar de dama.

Ginga e lábia, com ardor. Estômago em lugar de coração,
pedra no rim em vez de alma.

Tome drogas. É sempre aconselhável ver o panorama do alto.

Fale cuspindo. Super-heróis odeiam isso.

Pactos existem para serem quebrados. Mesmo que sejam com o diabo.

Nunca ame ninguém. Estupre.

Execre o amável. Zele pelo abominável.

Seja um pouco efeminado.
Isto sempre funciona com estilistas.

[ in, "Poesia do Dia - Poetas de Hoje para Leitores de Agora", org. Leandro Sarmatz, Ática, SP, 2008 ]

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30 abril, 2009

O Sambaquis perguntou à queima-roupa...

...e eu, nessa mania de dar opinião, também respondi:

O que é poesia para você?

(entre outras coisas...)

Para saber, clique aqui.

08 fevereiro, 2009

Sobre Reparação




Terminei de ler o  livro.

Confesso que sabotei a leitura, para não terminá-lo em 2 ou 3 dias. Quis aproveitar ao máximo a mistura entre técnica e talento de sir McEwan.

Alguns comentários:

- Com  relação ao filme, Desejo e Reparação, tiro o chapéu ao roteirista que soube transpor para a linguagem outra do cinema não só o esqueleto da construção narrativa do livro e seus tempos e olhares múltiplos, como também toda a, digamos, paisagem emocional que perpassa a história. Parabéns para Cristopher Hampton!!!

-Embora o filme seja magnífico e fiel, o livro é impressionante. Uma aula de como fazer o bom romance contemporâneo. Embora se possa perceber a extensão do trabalho de pesquisa empreendido pelo autor, no que diz respeito à II Guerra Mundial, às rotinas da enfermagem pós-Florence Nightigale, entre outras coisas, nada disso soa artificial, deslocado. Pelo contrário, você percebe a pesquisa, ela está posta de modo a ser percebida, como se o autor dissesse "é ficção, mas também é documento" e é isso que o torna, por incrível que pareça, mais próximo do verossimilhança.

-Como em Sábado, do mesmo autor, a metalinguagem é uma presença constante. Se naquele, a discussão girava em torno do fazer poético, em Reparação se discute as fronteiras entre vida e ficção, sua ética (se é que pode haver), os caminhos e descaminhos do romance contemporâneo.

-Algumas imagens constituem mesmo o que se chama de "metáforas poderosas". Uma delas, que atravessa a narrativa, é a da menina Briony, com seu vestido branco sujo de lama, pouco antes da sucessão dramática de eventos e erros: um prenúncio da inocência perdida para sempre, do crime que em breve vai cometer, das mãos que permanecerão, por toda a vida, sujas de sangue.

-Para um escritor não há como não compreender as atitudes de Briony. Ela é movida pela ficção e isso determina que se acredite que esta não apresenta realmente grandes diferenças da chamada vida real. Eu, por exemplo, sinto uma forte empatia pela personagem, e posso, sem dúvida, me reconhecer nela tanto na perversidade ingênua que a move, como na obsessão pela exatidão da palavra. Entretanto (e aqui voltamos a uma questão já colocada, embora não aprofundada), a vida cobra seu preço.

Enfim, recomendo sem ressalvas.



20 janeiro, 2009

O que não está no caderno vermelho

Sobre Sábado, o livro.

Eu havia dito aqui que o próximo livro que leria seria Reparação, de Ian McEwan. Por não ser muito metódica e por pequenos saltos no percurso que são o resultado direto de não ser metódica, acabei lendo Sábado, do mesmo autor, antes.

De certo modo, isso foi uma espécie de benção. Pude me distanciar do filme e tomar contato com o autor, seu estilo, seus modos de narrar e amarrar a atenção do leitor. De modo que posso dizer que McEwan me conquistou e e isso não é pouco. São raros os autores que me "fisgam" a ponto de que eu deseje ler outras obras suas. Saramago é um deles. Machado de Assis, também. Mia Couto, não sei, ainda. O que não significa que não admire autores que me pegaram por uma única obra, caso de Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar.

A narrativa de McEwan é impressa num ritmo lento que, no entanto, não é cansativo. Ele alterna uma visualidade marcante e detalhista com um fundo emocional intenso, num jogo muito bem articulado entre o externo e o interno. Há uma tensão constante e silenciosa que perpassa toda a narrativa e que envolve o leitor por inteiro. Aliado a esses cenários, digamos mais pessoais, há uma marca de contemporaneidade muito forte, o que insere seus personagens num mundo muito palpável, muito possível, quer eles estejam inseridos no "nosso" presente histórico, quer estejam recuados no tempo.

Sim, como podem perceber, já comecei a ler Reparação. Mas não é dele que quero falar agora.

Toda a história de Sábado, gira em torno de um único dia na vida do neurocirurgião Henry Perowne. Nesse dia, 15 de fevereiro de 2003, Perowne passa por uma série de incidentes que mudarão sua vida, seu modo de ver e estar no mundo. Para o personagem, o mundo só pode ser compreendido pela razão, o que não deixa de ser um problema posto que está cercado por artistas talentosos: a filha, poeta estreante, mas muito bem recebida no meio literário, o filho, guitarrista e uma promessa do blues e, por fim, o sogro, poeta canônico daqueles que tem sua obra citada em qualquer livro básico de literatura. Num mundo cerebral como o de Perowne não há espaço para a compaixão.

Ora, para ele a poesia e a ficção são desestabilizadores da razão e, por isso, seu interesse por elas é raso. Sua vida de classe média alta é marcada pela ordem, pela perfeição do carro que dirige, pela estabilidade da casa em que mora. Entretanto, o mundo a sua volta parece permanentemente ameaçador: a Inglaterra entrará ou não na Guerra do Iraque, o tráfico de drogas já chegou à praça em frente a sua casa, sua mãe, portadora de Alzheimer, lembra que a posse da vida e das coisas que julgamos fazer parte dela é uma ilusão. Ah, e claro, o terror fundamentalista é uma asa sombria a ameaçar  mundos perfeitos como o dele.

Neste sábado marcado por importantes acontecimentos, Perowne bate o carro e entra em contato com o mundo sombrio e desconexo de Baxter, um bandido jovem acometido de uma doença neurológica incurável. Esse encontro, que marcará o ápice das tensões do médico, será o ponto de fissura na redoma em que vive.

Numa entrevista concedida a Daniel Piza, o autor  afirma:

Tenho tédio a histórias que não vão além dos sentimentos. O escritor precisa aprender sobre seu mundo, digeri-lo e colocá-lo de volta em outra forma. Precisamos ser responsáveis, precisamos entender mais. Eu me interesso por romances que tenham inteligência crítica, em que o escritor parece saber mais do que eu sei e eu confie nele.

Compreensão de mundo, senso de responsabilidade e confiança são, sem dúvida, coisas que McEwan consegue em seus escritos. Recomendo.