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10 dezembro, 2011
27 setembro, 2011
Trajeto (poema em processo)
Maçã.
Velhos que se falam
em
uma língua incompreensível.
Três quilômetros de paredes descascadas:
Outra cidade.
Palavras.
A casa rosa
com platibanda branca
,
.
,
.
o
O
rio prenhe de embalagens coloridas
O
meu pai
me acenando noutra plataforma.
Poema.
A lembrança do poema,
o reconhecimento do poema
,
,
a sua perda.
Velocidade em espiral
:
:
perfume barato
,
,
a casa rosa
,
,
crianças brincando num quintal
,
,
camiseta vermelha
a minha vida num quadrado mágico.
Velocidade em espiral
:
:
a língua
dissoluta
,
dissoluta
,
o filho morto da minha avó
na próxima estação
,
,
a minha avó,
arames farpados nos muros
como trepadeiras
(o
o
burburinho do trem).
Poema.
O cheiro do poema.
O poema sujo de carne.
O vidro embaçado
do poema
.
do poema
.
Seus nervos expostos.
Poema.
Uma caixa de madeira ordinária
coberta
forrada
de flores
e tecido de algodão.
A
Uma
fotografia de alguém
que parece ser eu.
Tijolos vermelhos e brancos.
Velocidade descendente
.
:
.
:
O amigo sem
o
nó na garganta
,
o
nó na garganta
,
o amigo luminoso horas antes
,
,
o amigo dançando na memória.
Velocidade descendente
:
.
:
.
A sua pele sobre a minha pele
,
,
os seus cabelos alinhavados aos meus
,
,
a cicatriz me atravessando.
O poema.
A voz inequívoca do poema.
O gosto de sêmen do poema.
O ritmo
a perda
do poema
.
do poema
.
O meu avô na outra margem.
O meu pai na outra margem.
Eu.
A cidade cinza
contra
o verde quase impossível
.
a
A
mulher grávida
andando por sobre o lixão
.
.
a
A
lua,
Aceleração contínua.
Velocidade em espiral.
Talvez eu na próxima parada,
Vi
vi
são do último trem subindo ao céu
num livro muito velho.
Aceleração.
Desaceleração.
Repouso
Tudo parando
.
Cuidado com o vão entre o trem e a plataforma.
10 junho, 2011
Pesca
O peixe
é palavra,
é sabre
e poema,
escamas de prata.
Desliza na linha,
se perde
na água,
ondula
num verso,
esguio,
escapa.
Seus
olhos
(sereias)
fascinam
e matam.
O leque
do rabo
te acorda
com um tapa.
O peixe
é
palavra.
é palavra,
é sabre
e poema,
escamas de prata.
Desliza na linha,
se perde
na água,
ondula
num verso,
esguio,
escapa.
Seus
olhos
(sereias)
fascinam
e matam.
O leque
do rabo
te acorda
com um tapa.
O peixe
é
palavra.
18 maio, 2011
Escrevendo...
Mais um poema do novo livro.
Estrela da Vida Inteira
Entre a estrela
tão longe
e a vida,
uma menina
(pequena, ainda)
tece trezentas perguntas
a um interlocutor inexistente.
A aranha
(paciente)
aguarda a desistência
de todas as forças
e em algum lugar
duas torres desmoronam em segundos
por toda a eternidade.
Isso poderia ser a eternidade,
a estrela tecida entre perguntas,
a aranha tão pequena,
a menina inexistente.
E a vida inteira que cabe num poema,
outra arte
que não conheço muito bem.
09 abril, 2011
De A Cartografia da Noite
Sala
Na sala do dentista
o crânio
de riso aberto
tudo observa,
lua amarela,
absorta
no real.
Eu,
debaixo de uma língua
inexistente.
Eu,
dissolução.
A anestesia,
a hemorragia
controlada em algodões.
O Outro.
A polpa
de sangue
da fruta sobre o prato,
um santo degolado,
envolto em cetim
branco.
Eu,
uma palavra
engasgada
envolta em gaze.
O Outro
entre instrumentos
mais próprios à poesia.
O Outro
rindo de mim,
máscara inquebrável.
08 dezembro, 2010
Poema em processo -2
Um Klint
A cor falsificada,
a textura
imprecisa,
o nome esquecido
entre sinapses.
Talvez chame-se espelho
isto o que vejo.
Talvez chame-se afeto
isto o que quebro.
As cores,
ruivo,
laranja,
castanho,
branco azulado.
A palavra se perde,
mas era eu
em lâminas de ouro.
A cor falsificada,
a textura
imprecisa,
o nome esquecido
entre sinapses.
Talvez chame-se espelho
isto o que vejo.
Talvez chame-se afeto
isto o que quebro.
As cores,
ruivo,
laranja,
castanho,
branco azulado.
A palavra se perde,
mas era eu
em lâminas de ouro.
20 novembro, 2010
Poema em processo
Um Klint
A cor falsificada,
a textura
imprecisa,
o nome que esqueço
entre sinapses.
Talvez chame-se espelho
isto o que vejo.
Talvez chame-se afeto
isto o que quebro.
As cores,
ruivo,
laranja e castanho,
branco azulado.
A palavra se perde,
mas era eu
em lâminas de ouro.
A cor falsificada,
a textura
imprecisa,
o nome que esqueço
entre sinapses.
Talvez chame-se espelho
isto o que vejo.
Talvez chame-se afeto
isto o que quebro.
As cores,
ruivo,
laranja e castanho,
branco azulado.
A palavra se perde,
mas era eu
em lâminas de ouro.
17 novembro, 2010
Um poema do livro que por hora escrevo
Chama-se Outra Arte, o livro que há alguns meses escrevo. Andei me enrolando ao falar dele em uma entrevista, pois, de verdade, é cedo ainda para saber se ele é mesmo uma pausa no diálogo entre Geografia Íntima do Deserto e A Cartografia da Noite. Preciso amadurecer seu projeto para ter mais certezas. Enfim... Abaixo um poema desse livro em processo.
Um Klint
A cor falsificada,
a textura lisa,
imprecisa,
o nome que esqueço
entre sinapses.
Talvez chame-se espelho
isto o que vejo.
Talvez chame-se afeto
isto o que quebro
entredentes.
As cores,
um ruivo de flores,
laranja e castanho,
um branco azulado.
A palavra se perde,
mas era eu
em lâminas de ouro.
Um Klint
A cor falsificada,
a textura lisa,
imprecisa,
o nome que esqueço
entre sinapses.
Talvez chame-se espelho
isto o que vejo.
Talvez chame-se afeto
isto o que quebro
entredentes.
As cores,
um ruivo de flores,
laranja e castanho,
um branco azulado.
A palavra se perde,
mas era eu
em lâminas de ouro.
23 julho, 2010
Senhora das Tempestades
Senhora das tempestades e dos mistérios originais
quando tu chegas a terra treme do lado esquerdo
trazes o terramoto a assombração as conjunções fatais
e as vozes negras da noite Senhora do meu espanto e do meu medo.
Senhora das marés vivas e das praias batidas pelo vento
há uma lua do avesso quando chegas
crepúsculos carregados de presságios e o lamento
dos que morrem nos naufrágios Senhora das vozes negras.
Senhora do vento norte com teu manto de sal e espuma
nasce uma estrela cadente de chegares
e há um poema escrito em página nenhuma
quando caminhas sobre as águas Senhora dos sete mares.
Conjugação de fogo e luz e no entanto eclipse
trazes a linha magnética da minha vida Senhora da minha morte
teu nome escreve-se na areia e é uma palavra que só Deus disse
quando tu chegas começa a música Senhora do vento norte.
Escreverei para ti o poema mais triste
Senhora dos cabelos de alga onde se escondem as divindades
quando me tocas há um país que não existe
e um anjo poisa-me nos ombros Senhora das Tempestades.
Senhora do sol do sul com que me cegas
a terra toda treme nos meus músculos
consonância dissonância Senhoras das vozes negras
coroada de todos os crepúsculos.
Senhora da vida que passa e do sentido trágico
do rio das vogais Senhora da litúrgia
sibilação das consoantes com seu absurdo mágico
de que não fica senão a breve música.
Senhora do poema e da oculta fórmula da escrita
alquimia de sons Senhora do vento norte
que trazes a palavra nunca dita
Senhora da minha vida Senhora da minha morte.
Senhora dos pés de cabra e dos parágrafos proibidos
que te disfarças de metáfora e de soprar marítimo
Senhora que me dóis em todos os sentidos
como um ritmo só ritmo como um ritmo.
Batem as sílabas da noite na oclusão das coronárias
Senhora da circulação que mata e ressuscita
trazes o mar a chuva as procelárias
batem as sílabas da noite e és tu a voz que dita.
Batem os sons os signos os sinais
trazes a festa e a despedida Senhora dos instantes
fica o sentido trágico do rio das vogais
o mágico passar das consoantes.
Senhora nua deitada sobre o branco
com tua rosa-dos-ventos e teu cruzeiro do sul
nascem faunos com tridentes no teu flanco
Senhora de branco deitada no azul.
Senhora das águas transbordantes no cais de súbito vazio
Senhora dos navegantes com teu astrolábio e tua errância
teu rosto de sereia à proa de um navio
tudo em ti é partida tudo em ti é distância.
Senhora da hora solitária do entardecer
ninguém sabe se chegas como graça ou como estigma
onde tu moras começa o acontecer
tudo em ti é surpresa Senhora do grande enigma.
Tudo em ti é perder Senhora quantas vezes
Setembro te levou para as metrópoles excessivas
batem as sílabas do tempo no rolar dos meses
tudo em ti é retorno Senhora das marés vivas.
Senhora do vento com teu cavalo cor de acaso
tua ternura e teu chicote sobre a tristeza e a agonia
galopas no meu sangue com teu cateter chamado Pégaso
e vais de vaso em vaso Senhora da arritmia.
Tudo em ti é magia e tensão extrema
Senhora dos teoremas e dos relâmpagos marinhos
batem as sílabas da noite no coração do poema
Senhora das tempestades e dos líquidos caminhos.
Tudo em ti é milagre Senhora da energia
quando tu chegas a terra treme e dançam as divindades
batem as sílabas da noite e tudo é uma alquimia
ao som do nome que só Deus sabe Senhoras das tempestades.
(Do livro Senhora das Tempestades, de Manuel Alegre, Lisboa, 1998)
quando tu chegas a terra treme do lado esquerdo
trazes o terramoto a assombração as conjunções fatais
e as vozes negras da noite Senhora do meu espanto e do meu medo.
Senhora das marés vivas e das praias batidas pelo vento
há uma lua do avesso quando chegas
crepúsculos carregados de presságios e o lamento
dos que morrem nos naufrágios Senhora das vozes negras.
Senhora do vento norte com teu manto de sal e espuma
nasce uma estrela cadente de chegares
e há um poema escrito em página nenhuma
quando caminhas sobre as águas Senhora dos sete mares.
Conjugação de fogo e luz e no entanto eclipse
trazes a linha magnética da minha vida Senhora da minha morte
teu nome escreve-se na areia e é uma palavra que só Deus disse
quando tu chegas começa a música Senhora do vento norte.
Escreverei para ti o poema mais triste
Senhora dos cabelos de alga onde se escondem as divindades
quando me tocas há um país que não existe
e um anjo poisa-me nos ombros Senhora das Tempestades.
Senhora do sol do sul com que me cegas
a terra toda treme nos meus músculos
consonância dissonância Senhoras das vozes negras
coroada de todos os crepúsculos.
Senhora da vida que passa e do sentido trágico
do rio das vogais Senhora da litúrgia
sibilação das consoantes com seu absurdo mágico
de que não fica senão a breve música.
Senhora do poema e da oculta fórmula da escrita
alquimia de sons Senhora do vento norte
que trazes a palavra nunca dita
Senhora da minha vida Senhora da minha morte.
Senhora dos pés de cabra e dos parágrafos proibidos
que te disfarças de metáfora e de soprar marítimo
Senhora que me dóis em todos os sentidos
como um ritmo só ritmo como um ritmo.
Batem as sílabas da noite na oclusão das coronárias
Senhora da circulação que mata e ressuscita
trazes o mar a chuva as procelárias
batem as sílabas da noite e és tu a voz que dita.
Batem os sons os signos os sinais
trazes a festa e a despedida Senhora dos instantes
fica o sentido trágico do rio das vogais
o mágico passar das consoantes.
Senhora nua deitada sobre o branco
com tua rosa-dos-ventos e teu cruzeiro do sul
nascem faunos com tridentes no teu flanco
Senhora de branco deitada no azul.
Senhora das águas transbordantes no cais de súbito vazio
Senhora dos navegantes com teu astrolábio e tua errância
teu rosto de sereia à proa de um navio
tudo em ti é partida tudo em ti é distância.
Senhora da hora solitária do entardecer
ninguém sabe se chegas como graça ou como estigma
onde tu moras começa o acontecer
tudo em ti é surpresa Senhora do grande enigma.
Tudo em ti é perder Senhora quantas vezes
Setembro te levou para as metrópoles excessivas
batem as sílabas do tempo no rolar dos meses
tudo em ti é retorno Senhora das marés vivas.
Senhora do vento com teu cavalo cor de acaso
tua ternura e teu chicote sobre a tristeza e a agonia
galopas no meu sangue com teu cateter chamado Pégaso
e vais de vaso em vaso Senhora da arritmia.
Tudo em ti é magia e tensão extrema
Senhora dos teoremas e dos relâmpagos marinhos
batem as sílabas da noite no coração do poema
Senhora das tempestades e dos líquidos caminhos.
Tudo em ti é milagre Senhora da energia
quando tu chegas a terra treme e dançam as divindades
batem as sílabas da noite e tudo é uma alquimia
ao som do nome que só Deus sabe Senhoras das tempestades.
(Do livro Senhora das Tempestades, de Manuel Alegre, Lisboa, 1998)
08 janeiro, 2010
Hieróglifo
Na pedra da alma
gravo a cifra
do que sinto:
sou a um só tempo
o alvo,
o caçador
e o arco tenso,
estendido.
Micheliny Verunschk
[Geografia Íntima do Deserto, Landy, 2003]
gravo a cifra
do que sinto:
sou a um só tempo
o alvo,
o caçador
e o arco tenso,
estendido.
Micheliny Verunschk
[Geografia Íntima do Deserto, Landy, 2003]
10 agosto, 2009

O Espelho de Borges
Em uma jaula de vidro
repousa um homem
que não vê,
mas é visto.
O observam
as coisas inanimadas,
as trevas
a os móbiles
de onde pendem
transluminosas
palavras.
O trem
envolto na bruma azul
do calendário
confunde-se com o homem,
seu sono de mármore,
seu hálito.
Confunde-se com o homem
até a palavra em negro
Fevereiro
o musgo dos números
a pedra dos domingos
em vermelho.
Confunde-se com o homem
tudo o que não vê,
mas o cerca,
o que de fora da moldura
respira e observa.
(Micheliny Verunschk, in: Geografia Íntima do Deserto, Landy, 2003)
18 junho, 2009
um exercício de poesia
a propósito de um poema de Jacques Prèvert...
e aqui, o poema:
e aqui, o poema:
Deux et deux quatre
quatre et quatre huit
huit et huit font seize...
Répétez! dit le maître
Deux et deux quatre
quatre et quatre huit
huit et huit font seize.
Mais voilà l'oiseau-lyre qui passe dans le ciel
l'enfant le voit
l'enfant l'entend
l'enfant l'appelle:
Sauve-moi joue avec moi oiseau!
Alors l'oiseau descend
et joue avec l'enfant
Deux et deux quatre...
Répétez! dit le maître
et l'enfant joue
l'oiseau joue avec lui...
Quatre et quatre huit
huit et huit font seize
et seize et seize qu'est-ce qu'ils font?
Ils ne font rien seize et seize
et surtout pas trente-deux de toute façon
et ils s'en vont.
Et l'enfant a caché l'oiseau dans son pupitre
et tous les enfants entendent sa chanson
et tous les enfants entendent la musique
et huit et huit à leur tour s'en vont
et quatre et quatre et deux et deux
à leur tour fichent le camp
et un et un ne font ni une ni deux
un à un s'en vont également.
Et l'oiseau-lyre joue
et l'enfant chante
et le professeur crie:
Quand vous aurez fini de faire le pitre!
Mais tous les autres enfants écoutent la musique
et les murs de la classe s'écroulent tranquillement
Et les vitres redeviennent sable
l'encre redevient eau
les pupitres redeviennent arbres
la craie redevient falaise
le porte-plume redevient oiseau.
29 dezembro, 2008
Feliz 2009!!!
15 outubro, 2008
dois poemas
O primeiro, do livro quase pronto ( se é que um dia acharei que um livro meu estará "pronto"), A Cartografia da Noite:
Cerco
Uma palavra
espreita
e se esgueira
entre todas as frases
não lidas.
Lambe,
com um longo l,
suas próprias letras,
desde as vogais atentas
às consoantes hirsutas de frio.
Salta as armadilhas do poema.
Escapa
a todo laço,
dedos,
canetas,
memória,
dicionário.
Estala,
folha seca.
Mineraliza-se,
sólido concreto.
Respira ofegante
como quem se afoga
ou antecipa o bote.
Transforma-se
em inúmeros bichos
e foge.
E esse outro, do livro Geografia Íntima do Deserto (Landy 2003)
Um Canto Obsessivo
O que habita este envelope fechado?
Um animal ou uma máquina
que engendra surpresas mal-queridas?
O que se escuta são risadas,
o trabalho de uma usina,
ou serão garras que rasgam papéis,
mapas,
festas gregas em que se quebram pratos?
Que mecanismos trabalham nesta carta?
Seu tic-tac é de bomba,
de conta atrasada,
de contagem regressiva?
Talvez intimação da justiça
ou uma ação de despejo da própria vida.
Talvez nada,
só um convite para a liquidação
da loja mais próxima
ou o coração de um indigente
pingando ainda,
material didático para a aula de anatomia.
Talvez nada,
só uma carta,
papel contra papel,
uma rosa desfolhada
e um amontoado de letras desconexas.
Notícias,
um pedido que morre,
a graça que fica,
a guerra que arde no íntimo amigo.
Talvez tudo,
um bicho traiçoeiro e pardo e mudo
ataviado de selos e outros enfeites,
mas muito ágil em cravar os dentes,
ele todo um ríctus de espinhos
que desfibra a vítima.
Que palavras guardam este cofre?
Que susto de presente?
Que bote?
26 setembro, 2008
Adrienne Rich
De um poeta, diz-se, a única biografia deveria ser a data de nascimento e a data de morte. No entanto, não resistimos e procuramos esmiuçar a vida do poeta, seus gostos, desgostos, hábitos, paixões. Assim, temos que a poeta Adrienne Rich nasceu norte-americana em 1929, filha de pai judeu e mãe cristã. Tornou-se judia por opção. É defensora ardorosa dos direitos humanos, da cultura da paz e é feminista engajada pelos direitos dos homossexuais, questões que são, inclusive, vitais para a compreensão de sua obra. Publicou 17 livros de poesia e 4 ensaios. Nenhum deles publicado no Brasil, infelizmente. Em Portugal, a editora Livros Cotovia publicou, em edição bilingüe, Uma Paciência Selvagem.
Abaixo, um poema de Adrienne Rich e a minha versão para ele:
Women
My three sisters are sitting
on rocks of black obsidian.
For the first time, in this light, I can see who they are.
My first sister is sewing her costume for the procession.
She is going as the Transparent lady
and all her nerves will be visible.
My second sister is also sewing,
at the seam over her heart which has never healed entirely,
At last, she hopes, this tightness in her chest will ease.
My third sister is gazing
at a dark-red crust spreading westward far out on the sea.
Her stockings are torn but she is beautiful.
Minhas três irmãs estão sentadas
sobre a obsidiana negra.
Pela primeira vez está claro
e posso vê-las.
A primeira costura uma túnica de procissão.
Ela, a Senhora Transparente,
desfilará com os nervos à mostra.
A segunda também costura
sobre a ferida que nunca cicatriza dentro do coração.
Quem sabe agora, se alivia.
A terceira irmã avista
uma crosta vermelha e escura
(talvez púrpura)
que se lança mar afora.
Tem as meias rasgadas, essa irmã,
mas é tão linda!
(livre tradução de Micheliny Verunschk)
Para escutar Adrienne Rich recitando o poema I dream I'm the death of Orpheus, clique aqui.
21 agosto, 2008
um exercício
[é assim como chamo aos poemas os quais não sei se se salvam. Então, enquanto não sei, servem de exercício ou para lembrar a mim mesma quem sou]
O poema
que não me habita
salta arisco
sobre o abismo
do meu nome
e mora
exato
no livro ao lado
(aquele, que não escrevi).
Foge de mim
como o diabo
da cruz.
Ri da minha insônia.
O poema
que não me habita
me alimenta
da sua ausência.
É o pão que deus amassou.
Bate na minha porta
e foge
inominável.
Não trepa.
Não goza comigo.
Não é meu amigo.
O poema
que não me habita
não deixa que um anjo
o anuncie
mas freqüenta
o espelho do banheiro.
É belo
e puro
e inacessível
como uma coluna grega
mas me tenta
há quarenta dias
nesse deserto.
E chega tão perto
que posso ouvir
sua respiração.
Chega tão perto
que quase o pego
roubo
digo que é meu.
Chega tão perto
que quase finjo
que mora comigo.
O poema que não me habita
é o diabo
no corpo
de outro
que não sou eu.
O poema
que não me habita
salta arisco
sobre o abismo
do meu nome
e mora
exato
no livro ao lado
(aquele, que não escrevi).
Foge de mim
como o diabo
da cruz.
Ri da minha insônia.
O poema
que não me habita
me alimenta
da sua ausência.
É o pão que deus amassou.
Bate na minha porta
e foge
inominável.
Não trepa.
Não goza comigo.
Não é meu amigo.
O poema
que não me habita
não deixa que um anjo
o anuncie
mas freqüenta
o espelho do banheiro.
É belo
e puro
e inacessível
como uma coluna grega
mas me tenta
há quarenta dias
nesse deserto.
E chega tão perto
que posso ouvir
sua respiração.
Chega tão perto
que quase o pego
roubo
digo que é meu.
Chega tão perto
que quase finjo
que mora comigo.
O poema que não me habita
é o diabo
no corpo
de outro
que não sou eu.
28 outubro, 2007
Enfeite
Enquanto não vinhas
eu pastorava as brisas
e à noite, juntava todas
nas cercas do meu sono.
Depois construía praças e jardins
com as palavras empilhadas sobre as cartas
com as cartas empilhadas sobre os dias
com os dias empilhados sobre o nunca.
Arquitetava flores e outra engenharia do tempo
enquanto não vinhas
e nada, nada, era belo assim.
Enquanto não vinhas
fiz para mim esta urna funerária
com que enfeitas hoje,
inadvertidamente,
a tua sala.
[do livro inédito A Cartografia da Noite]
eu pastorava as brisas
e à noite, juntava todas
nas cercas do meu sono.
Depois construía praças e jardins
com as palavras empilhadas sobre as cartas
com as cartas empilhadas sobre os dias
com os dias empilhados sobre o nunca.
Arquitetava flores e outra engenharia do tempo
enquanto não vinhas
e nada, nada, era belo assim.
Enquanto não vinhas
fiz para mim esta urna funerária
com que enfeitas hoje,
inadvertidamente,
a tua sala.
[do livro inédito A Cartografia da Noite]
24 agosto, 2007
27 abril, 2007
A Borboleta
Faminta mancha
na parede branca
a negra borboleta
abre as asas.
Devora toda
a parede branca
a lepra da faminta
que se alastra.
Somente mancha,
somente mancha,
mancha que se alarga.
Somente mancha,
faminta mancha.
estrela negra
abrindo grandes asas.
(Esse poema está no meu livro"Geografia Íntima do Deserto". A partir dele foi feita a animação que está dois posts abaixo).
na parede branca
a negra borboleta
abre as asas.
Devora toda
a parede branca
a lepra da faminta
que se alastra.
Somente mancha,
somente mancha,
mancha que se alarga.
Somente mancha,
faminta mancha.
estrela negra
abrindo grandes asas.
(Esse poema está no meu livro"Geografia Íntima do Deserto". A partir dele foi feita a animação que está dois posts abaixo).
05 abril, 2007
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