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10 setembro, 2009

Carta em apoio à nação Xucuru

Nós, artistas e cidadãos, de várias tribos e ajuntamentos, resolvemos sair da nossa confortável maloca. Da nossa toca. Palhoça. Dos nossos teatros e refletores. Do casulo de nossas partituras e parágrafos. Para, humana e urgentemente questionar o que tem acontecido com a Nação Xukuru de Ororubá, em Pernambuco. Assunto que tem recebido o silêncio da mídia e, quando não, é tratado com descaso e superficialidade.

Para quem não sabe, os problemas enfrentados pelo povo Xukuru datam desde o covarde assassinato do Cacique Chicão, há 11 anos - ele, principal liderança no processo de desenvolvimento da identidade do povo Xukuru e de reintegração territorial, e cuja luta foi imortalizada em canções-protesto assinadas por grupos como Cordel do Fogo Encantado, Mundo Livre S.A. e Quinteto Violado, entre outros.

Em seu lugar e na defesa dos direitos de sua gente, está atualmente o seu filho, o Cacique Marcos. No entanto, em fevereiro de 2003, Marcos sofreu um atentado, em que saiu ferido e em que dois jovens de sua tribo foram mortos. Além de vítima de mais uma tragédia, o Cacique Marcos passou à condição de réu em um processo cheio de incoerências, que se diz concluído sem ao menos ouvir as testemunhas de defesa.

Vale ressaltar que, infelizmente, é comum em nosso país a prisão arbitrária de índios, não apenas negando a sua cidadania, como, ao que parece, revelando a parcialidade da justiça e o seu alinhamento com as elites dominantes.

Aqui, ABAIXO ASSINADOS, queremos, todos juntos, demonstrar a nossa indignação e, sobretudo, alertar a população e as autoridades nacionais e internacionais para o possível desfecho trágico desses episódios. Destino cruel que está reservado, historica e ironicamente, a todo aquele que luta pela terra e pela igualdade de direitos.

Conscientes da importância social e política do povo Xukuru, resolvemos reunir as nossas forças para pedir, publicamente, transparência na condução dos fatos. Faremos tudo o que for possível para que a memória do Cacique Chicão seja preservada. E continue iluminando e inspirando o seu povo.

E também àqueles que, como nós, não perderam a esperança no futuro de nosso país.

Atenciosamente,

[para assinar esta carta vá ao blog Em Apoio à Nação Xucuru, clique em comentários e escreva seu nome, profissão, identidade e Estado]

08 junho, 2009

Platão estava certo...




os poetas são uma ameaça à República e à ordem estabelecida, a julgar pela recente caça às bruxas que retirou das bibliotecas escolares de São Paulo obras de Manoel de Barros, Tim Burton, e ainda uma coletânea que escandalizou as professorinhas por conta de um poema de Joca Reiners Terron.

Seguindo São Paulo, a secretaria de educação de Santa Catarina retirou de suas estantes o romance Aventuras Provisórias, de Cristovão Tezza.

Erotismo, incitação a violência e pornografia são algumas das justificativas que os governos dão para o recolhimentos dos livros.

Ora! Se os maiores motivos são esses, que tal recolher 98% da literatura ocidental dos últimos séculos? Poderíamos começar pela Bíblia, com aquele amontoados de traições, infidelidades, estupros, fratricídios, entre outros maus exemplos para a juventude.

Poderíamos também fazer grandes fogueiras em praças públicas com os livros de Jorge Amado, Hilda Hilst, Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz, só para citar alguns dos maus elementos nacionais.

Poderíamos até incluir esse espetáculo como atração da Virada Cultural. Poderia se chamar Queimada Cultural, à falta de criatividade para um nome melhor ou menos autoreferente.

Enfim, poderíamos feito patinhos otários cair na boca do grande crocodilo e queimar dinheiro público esturricando poetas e prosadores, sem distinção, pois, com certeza isso dá muito menos trabalho que EDUCAR.

Educar professores e técnicos em educação analfabetos funcionais que leem mas não sabem contextualizar e menos ainda transpor os frutos da experiência literária para a sala de aula.

Educar crianças e adolescentes de modo a se tornarem leitores críticos e poderosos.

EDUCAR a sociedade para a leitura do mundo ao seu redor.

Enquanto a grande queimada não vem, continuemos a prensar livros que ensinam que letra de música popular é poesia e a nos lamentar pelo baixo nível cultural do brasileiro. Continuemos a nos pautar pela Veja e similares como bússola do ideario nacional. Continuemos a dar uma educação carne de terceira para nossas crianças e jovens. Pois é sempre mais fácil ter medo da literatura do que das manchetes dos grandes jornais.

De minha parte, que fui apresentada ao mundo das tensões, tesões e contradições da alma humana pelas mãos da minha mãe que leu Dom Casmurro para mim quando eu tinha entre 9 e 10 anos de idade, dou vivas ao Marquês de Sade!

E viva eu e viva tu e viva o rabo do tatu, não é mesmo?!

Abaixo, o poema de Joca e links para mais notícias sobre essa estupidez.


Manual de auto-ajuda para supervilões

Ao nascer, aproveite seu próprio umbigo e estrangule toda a equipe médica.
É melhor não deixar testemunhas.

Não vá se entusiasmar e matar sua mãe.
Até mesmo supervilões precisam ter mães.

Se recuse a mamar no peito. Isso amolece qualquer um.

Não tenha pai. Um supervilão nunca tem pai.

Afogue repetidas vezes seu patinho de borracha na banheira,
assim sua técnica evoluirá.
Não se preocupe. Patos abundam por aí.

Escolha bem seu nome. Maurício, por exemplo.

Ou Malcolm.

Evite desde o início os bem intencionados. Eles são super-chatos.

Deixe os idiotas uivarem. Eles sempre uivam, mesmo quando não
podem mais abrir a boca.

Odeie. Assim, por esporte.
E torça por time nenhum.

Aprenda a cantar samba, rap e jogar dama. Pode ser muito útil na cadeia.
Principalmente brincar de dama.

Ginga e lábia, com ardor. Estômago em lugar de coração,
pedra no rim em vez de alma.

Tome drogas. É sempre aconselhável ver o panorama do alto.

Fale cuspindo. Super-heróis odeiam isso.

Pactos existem para serem quebrados. Mesmo que sejam com o diabo.

Nunca ame ninguém. Estupre.

Execre o amável. Zele pelo abominável.

Seja um pouco efeminado.
Isto sempre funciona com estilistas.

[ in, "Poesia do Dia - Poetas de Hoje para Leitores de Agora", org. Leandro Sarmatz, Ática, SP, 2008 ]

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02 maio, 2009

um porco atrás da orelha...



Sei que posso estar falando bobagem, mas será que o pânico do porco, ou melhor, o pânico da gripe não se deve ao fato de ela ter surgido no México e, nós, com nossa alma latina passional, assustadiça e um tanto histérica estamos mesmo é a espalhar a pandemia do medo?

Ontem, no noticiário, vi cenas dignas de Monstros S/A,ou pior, de Ensaio sobre a Cegueira, com pessoas mascaradas, equipes altamente especializadas com roupas de proteção, indivíduos sendo colocados de quarentena por causa de um espirro.

No fim das contas, isso tudo só serve para disseminar a desconfiança entre as pessoas, a xenofobia e coisas do tipo, afinal mutações do vírus da gripe sempre existiram e existirão, sempre mataram o seu tanto e sempre seguirão matando.E nós seguiremos encontrando formas de resistir, de sobreviver.

Ah, acho que isso serve também para retirar das pessoas o olhar mais atento sobre o mundo que as cerca. Preocupadas com a gripe, elas esquecem dos governantes pífios ou corruptos, esquecem da crise, esquecem do real. Vivem num estado paralelo de dormência e suspensão.

Enquanto temem a morte, ou uma suposta morte, esquecem de viver.

Por falar nisso, em pessoas esquecidas de viver, devo dizer que tenho muita vergonha de viver num país em que o Dia do Trabalhador é dia de pão e circo financiado pelos sindicatos e não um dia de protestos e manifestações.

Enquanto aqui fazem as unhas, cortam os cabelos e saculejam para músicos de gosto pra lá de duvidoso, o mundo briga por mais emprego, por melhores salários e por tudo o que signifique dignidade para os trabalhadores e suas famílias.

Enfim... Parece ser melhor fofocar sobre Miss Pig e o sapo Caco, ou sobre a novela das 8, do que tomar as rédeas da própria vida e viver.

12 janeiro, 2009

O horror, o horror!


imagem: sem crédito


São mais de 900 mortos e quase 4000 mil feridos na investida de Israel contra a Palestina.

Embalados por um certo "direito divino", fanáticos judeus e palestinos se digladiam pela posse de uma terra saqueada e ensanguentada.

O que me impressiona, nos últimos acontecimentos desse conflito, é que, ao que parece, Israel pouco aprendeu com os sofrimentos que o povo judeu padeceu historicamente (coisa que fica clara com o impedimento da ajuda humanitária aos civis palestinos) e a Palestina, ou antes, os palestinos do Hamas, pouco têm da sabedoria que se espera de um povo milenar, que é também um dos berços da humanidade. 

No meio desse conflito de tubarões de dentes afiados, fica o povo, de um lado e do outro,  a pagar uma conta muito  alta. Um povo manipulado pelos interesses políticos de suas lideranças ou pelo olhar, quase sempre distorcido, do Ocidente. Gente que, como eu e você,  tudo o que quer é viver em paz. 

14 dezembro, 2008

breves comentários sobre 2008

A eleição de Barack Obama


Torci, e muito, para que Barack Obama fosse eleito presidente dos EUA. Acho que é um momento histórico único e fiz coro com o resto do mundo: Yes, we can!


No entanto, acho que eleger uma pessoa negra como presidente da "maior potência política e bélica" apenas em 2009, já no século XXI, só demonstra o quanto ainda estamos atrasados em questões de direitos civis iguais e oportunidades para todos.


Acho que sim, há muito o que se comemorar, mas sem perder de vista de que ainda há muito o que se conquistar em termos de cidadania e garantias para as minorias.


Uma outra coisa. Não dá para esquecer que Obama é presidente de uma nação autoritária e de longo histórico intervencionista. Ele não fará milagres e tem um trabalho árduo pela frente, principalmente porque as expectativas são muitas. Então, creio, que não é demais dizer ao mundo: devagar com o andor!


Sobre a banalização da violência
Na semana que passou, o júri popular absolveu um dos policiais militares que fuzilou o menino carioca João Roberto, de 5 anos, sem chances de fuga ou de defesa ao confundir o veículo da família com outro carro que perseguiam.

Quando o povo dá, assim, passe livre para matar, é porque realmente a sociedade está muito doente. Isso é escandaloso! Não apenas a absolvição em si, mas o fato de que vive-se numa cadeia antropofágica em que, bobeou, você é devorado debaixo das palmas do público faminto.

E não importa se é uma criança, um bandido, um transeunte descuidado. Como vive-se em função do medo, qualquer saraivada de balas se justifica.

O Rio de Janeiro é uma metáfora do Brasil:
Viva o carnaval! A família real! A fama instântanea e o futebol!
Pim, Pam, Pum! Cada bala mata um! Puxa o rabo do tatu! Quem saiu foi tu!

A 28ª Bienal e a falácia do contato com a vida
Não fui à Bienal, por absoluta falta de tempo. Entretanto tenho acompanhado os lances da prisão da pichadora Caroline Pivetta, presa há quase dois meses por pichar um salão em branco que, "conceitualmente", estaria aberto à manifestação e performances de artistas (artistas convidados, diga-se de passagem).

Seria, "conceitual e teoricamente" um espaço aberto à arte viva.

Seria, falsamente ( e muito falsamente) , um lugar aberto a manifestações viscerais.

Caroline fez parte de uma ação da qual participaram vários pichadores. Jovens, que se comunicam com a cidade e a sociedade com seus garranchos e garatujas, é verdade, mas que transformam os espaços urbanos, de fato, em espaços vivos, em lugares ocupados. Se sua comunicação é vazia, como acusam muitos, nem por isso é menos legítima que a comunicação dos chamados artistas contemporâneos ou de vanguarda. E por que seria? Por que não a compreendemos?

Quando se joga o poder de polícia e de repressão em jovens que, sim, tem algo a dizer, por mais incompreensível que seja, só se aprofunda o fosso entre aqueles que deveriam ser iguais entre si.

Em tempo, só Caroline está presa e a parede pichada foi repintada sem qualquer dano ao patrimônio público.

(Para assinar a petição por sua liberdade, clique aqui)

02 junho, 2008

em coma




este blog sofreu um ataque cardíaco. Os prognósticos não são bons. Ele viverá? Morrerá? Ainda não sei das chances reais de sobrevivência.

Isso explica essa roupinha de hospital.

Qualquer mudança no quadro, aviso.



[crédito: maria inês ferreira]