21 agosto, 2008

um exercício

[é assim como chamo aos poemas os quais não sei se se salvam. Então, enquanto não sei, servem de exercício ou para lembrar a mim mesma quem sou]


O poema
que não me habita
salta arisco
sobre o abismo
do meu nome
e mora
exato
no livro ao lado
(aquele, que não escrevi).
Foge de mim
como o diabo
da cruz.
Ri da minha insônia.
O poema
que não me habita
me alimenta
da sua ausência.
É o pão que deus amassou.
Bate na minha porta
e foge
inominável.
Não trepa.
Não goza comigo.
Não é meu amigo.
O poema
que não me habita
não deixa que um anjo
o anuncie
mas freqüenta
o espelho do banheiro.
É belo
e puro
e inacessível
como uma coluna grega
mas me tenta
há quarenta dias
nesse deserto.
E chega tão perto
que posso ouvir
sua respiração.
Chega tão perto
que quase o pego
roubo
digo que é meu.
Chega tão perto
que quase finjo
que mora comigo.
O poema que não me habita
é o diabo
no corpo
de outro
que não sou eu.

7 comentários:

Cícero Soares disse...

Putz... Esses dias, esses dias mesmo vi uma variação disso aí de não salvar nem dia nem lugar cativo:

Poema que não escreverei

e quiser me asfixiar nesse vinho

de cor insone e vil

no lugar de quem, imune

às vertigens que de cor já sei

é palidez permanente

e a linha do tempo

e a mutilação sua não passassem

de uma só e mesma

emboscada de sempre

e quiser me vingar da ressaca

desse mineral tempo de sempre

ao lado de quem de beira

em eira devora-me apenas, meu querer

não sendo apenas e o mesmo

de quando eu fazia das tripas

dionísios e poemas

e neles me afogava só

e quiser me ter de boca pra fora

e respirar através de um poema

que jamais escreverei

com quem, de nunca o ter lido

jaza a um profundo

que nenhum levante do dia

venha a alçar

(não, não escreverei poema algum

nem antes, nem durante

nem mesmo depois que

a explosão desse dia fatídico

desfaça tudo e tudo emergir por nós)

Zé Paulo disse...

Tive que colocar este belo poema na Lanterna.
Espero que não fiques zangada.
Abraço.
ZP

Micheliny Verunschk disse...

oi, Cícero! Que incrível não? Parecem poemas irmãos!

Belíssimo o seu!

Abs!

Cícero Soares disse...

Pô, Micheliny, sacanagem, a gente se coloca lá numa terceira pessoa impessoal e você já entrega o jogo, digo, a autoria? rs.... Então tá, sejamos rigorosos: não parecem irmãos, parecem primos. Mas além de 3o. grau. Porque vai que o povo resolve taxar isso de nepotismo? Já viu, né?

Mary disse...

Oi Mi, e vc que me disse ter perdido a poesia, esse é muito lindo, continue pra sempre. bjão amo vc.
Mary

Marina * disse...

Olaa !

Estava dando uma olhada no seu blog, e achei muitoo legal ! Parabens ! haha. Eu acabo de criar um blog com o intuito de utilizar a inspiração das pessoas despostas, para podermos criar uma história diferente, todos juntos ! Gosto do modo como escreve e peço uma forcinha ao meu blog, teria como compartilhar com idéias?
Haioshashio, se não, tudo bem =]
Obrigada de qualquer forma pela atenção. Um beijo Má *

Anônimo disse...

MICHELINY, querida, estou no Recife. Espero você hoje, SEXTA, às 17 horas, na Livraria Cultura, quando lançarei o livro de contos "RASIF". Antes, no mesmo local e dia, às 15 horas, participo de um bate-papo com mais dois escribas. Apareça. Ficarei feliz e beijos, MARCELINO FREIRE.