26 julho, 2009

Só as mães são felizes...


Fui uma criança no mínimo esquisita. Com uma incomum fascinação por fantasmas, cemitérios e histórias de terror.

Minha mãe não achava graça nenhuma nisso.

Mas o que eu podia fazer? Eu era (sou) assim.

Por muito tempo achei que ninguém poderia me entender ou traduzir até que assisti ao O Estranho Mundo de Jack, de Tim Burton.

Uau!!!

Aquilo era eu, meu universo, minha estética desde criança.

Raio de criança estranha, dirão alguns. Mas o que fazer?

Não que eu fosse ou seja gótica. Não é isso. Pelo contrário. Me considero muito solar. Mas o fato é que compreendo bem a união lúdica entre infância e bizarrice.

Tudo isso é pra falar de Coraline, o filme baseado no romance de Neil Gaiman. Sim, ele, o criador de Sandman, o mestre dos sonhos, não por acaso um das minhas histórias em quadrinhos prediletas.

Coraline é uma menina que muda-se para um novo apartamento com seus pais. Sem muita atenção deles, que estão envolvidos na árdua tarefa de conquistar sucesso e sustento, a menina cerca-se de seus vizinhos excêntricos e de um menino que constantemente a irrita. Não sabe ela, porém, que a casa onde mora esconde um portal para um mundo paralelo quase igual ao seu, exceto pelos fatos de que há outros pais muito mais legais (embora tenham estranhamente botões no lugar dos olhos) e de que lá tudo pode acontecer como, por exemplo, um gato falar.

Acontece que esse mundo é uma armadilha criada pela Outra Mãe, uma figura feminina monstruosa, capaz de sugar a alma das crianças escolhidas para serem amadas por ela. E Coraline é sua próxima vítima. Ou melhor, não é, porque a menina não se deixa vitimizar. Pelo contrário, contesta, enfrenta, desconstrói o mundo e as figuras maternas tanto da mãe real quanto da Outra Mãe.

Não precisa ter lido muito sobre psicologia para comprender este confronto que está na base da nossa formação. Todos temos uma mãe real e uma mãe projetada. Toda mãe é Maria Santíssima e a Madrasta da Branca de Neve. Esta é uma das fantasias mais básicas de toda criança.

O que chama a atenção em Coraline é que apesar de a mãe real estar ausente de suas funções, ainda assim a menina a resgata e restaura a seu lugar de origem. O que parece ser um recado a todos os pais e mães que se retiram do convívio de seus filhos seja não compartilhando de suas vidas, não se interessando por suas brincadeiras, não estabelendo uma real conexão com eles ou simplesmente porque estão ocupados demais.

E esse recado é muito simples: apesar de toda fantasia sombria que seu filho crie sobre você, o que ele quer mesmo é conhecê-lo da forma mais honesta que for possível.

Outro ponto que chama a atenção são os extremos em que as duas mães se colocam. De um lado a mãe ausente demais. Do outro lado, a mãe presente demais. Em qualquer das duas atitudes o resultado pode ser devastador. Inclusive porque, em muitos casos, como no filme, a paternidade também é exercida tendo como ponto de partida o exercício do poder materno. A cena em que o Outro Pai se revela uma fantasmagoria criada pela Outra Mãe apenas para agradar Coraline é eloquente e elucidativa do quanto muitas mulheres buscam ocupar todos os espaços na vida do filho.

É assustador. E é real.


Se a ausência deprime, a onipresença sufoca. E essa é a mola mestra desse filme sombrio e delicado.

3 comentários:

Sônia disse...

Acessei seu blog pegando carona no blog da Marta. Adorei!
Quero ver esse filme, fiquei curiosíssima! Obrigada pela dica.
Um beijo,
Sônia

Anônimo disse...

seja bem-vinda, Sonia!!! E assista Coraline sim, vale a pena!

bj!

Micheliny

Andréa M. disse...

Que bom saber que tem mais alguém no mundo que quando criança assistia o Estranho Mundo de Jack e se encantava com todo aquele Halloween!
Me identifiquei, rs.

Ainda não vi coraline, mas lembro que vi o trailler no cinema. E até hoje me arrependo de não ter levado meus priminhos de 6 e 4 anos para ver. Seria diversão em dobro, rs. Agora só me resta esperar sair para alugar.

Um abraço,

Andréa