21 outubro, 2008

Ainda o orgulho de ser pernambucano...

(última parte)

Às vésperas de deixar Pernambuco mais uma vez, conforme prometido no polêmico texto anterior sobre esse assunto, digo agora do "meu" orgulho em ser pernambucana.

Sinto orgulho do acolhimento da gente do interior, gente que sabe receber o outro e que, sem receios, abre sua casa e coração a quem chega. As pessoas do interior são, em geral, muito afáveis e gentis, embora, à primeira vista, pareçam desconfiados e ariscos. Mas não são, é só a proteção natural que todo mundo tem perante o desconhecido. 

Sim, o litoral pernambucano, arredondado e ondulante é bonito de se ver. No entanto, há outra beleza que não está assim tão evidente e só quem tem olhos para ver consegue enxergar. Ela está no sertão e no agreste nos meses de chuva e está no cinza desértico dos meses de seca. Está na casinha solitária cravada num morro verde da zona da mata. Está num flash de imagem, um gavião pegando uma cobra em pleno vôo, que vejo da janela do carro. E, nessa sucessão de imagens, de locais, de paisagens, de passagem, me sinto em casa.

Devo confessar que não me sinto orgulhosa pelas guerras e batalhas que fizeram Pernambuco ganhar a alcunha de Leão do Norte. Guerras e batalhas sempre, ou na maioria da vezes, atendem a interesses de uma elite. Assim, a Batalha dos Guararapes, tão exaltada em Pernambuco, pouco me comove. Mas me orgulho, sim, do espírito combativo de pernambucanos que arriscaram suas vidas e seu conforto para se posicionar contra o status quo. Nesse sentido, e para falar de uma história mais contemporânea, tenho muito, mas muito orgulho dos pernambucanos que se posicionaram contra a ditadura militar de 1964. Pelos que foram mortos, perseguidos e forçados ao exílio.

Por falar em "exílio", um grande orgulho que sinto é dos pernambucanos que migram para se fazer ouvir, para poder pensar, para poder atuar na vida. Que se fazem cidadãos do mundo ou, antes, cidadãos da sua arte ou ofício e, para isso, carregam consigo uma bagagem (às vezes maior, às vezes menor) de coragem, ousadia e perdas. Orgulho de João Cabral e Manoel Bandeira, de Osman Lins e João Alexandre Barbosa. Orgulho dos pernambucanos do meu afeto, companheiros de migração, de arribação. De Tatiana, de Aninha, de Rabu, de Lirinha, de Marta, de Luís César. E mesmo dos anônimos que vão para a construção civil ou para o emprego doméstico, mas que ousam sair e buscar algo que nem sempre a terra natal oferece, infelizmente.

Do mesmo modo, tenho orgulho dos que ficam e conseguem à força da persistência e do talento se estabelecer. 

Sim, tenho, à minha maneira, orgulho de ser pernambucana, mas antes de tudo e de qualquer pátria, tenho orgulho de ser quem eu sou, da pessoa que construo a cada dia, a cada ganho, a cada perda, a cada nova aventura, a cada vôo, a cada recuo, a cada tropeço, a cada novo olhar, a cada recomeço.