28 julho, 2008

Sobre o tão falado orgulho de ser pernambucano

O pernambucano médio acredita em campanhas publicitárias. Sejam elas patrocinadas por governos ou por empresas privadas. Assim, há um decantado "orgulho de ser pernambucano", quando pouco se sabe do que realmente se está falando.

O tal sentimento de pernambucanidade não nasceu de um dia para o outro. Sim, ele é histórico. Nasceu, provavelmente, com as lutas e rebeldias contra a Coroa Portuguesa. Nasceu numa época em que a alcunha de Leão do Norte era não somente válida como também verdadeira.

Porém, nas gerações mais recentes, não há como fugir do fato de que o tal orgulho de ser pernambucano é oriundo, principalmente, de uma campanha de uma rede de supermercados (e seus adesivos "orgulho de ser nordestino"), de uma outra campanha do governo estadual em que o hino do estado era tocado em vários ritmos, de um hit (que deve ter rendido bastante dinheiro para a gravadora e para o artista) que dizia: Eu sou mameluco, sou de Casa Forte, sou de Pernambuco, eu sou o Leão do Norte.

Ganhou ares folclóricos as máximas que dizem que em Pernambuco se tem a "maior avenida em linha reta", "o jornal mais antigo em circulação da América Latina", " o maior shopping da América Latina" e por aí vai.

Sim, o pernambucano médio se orgulha dessas coisas.

Mas se orgulha também de suas tradições, de suas raízes. Se orgulha de Luís Gonzaga, dos poetas repentistas, de João Cabral de Melo Neto, de Manuel Bandeira, do Manguebeat. Mas esquece que, raízes que não caminham e que não se alimentam, asfixiam.

Se orgulha do seu passado de glórias.

Porém, tanto orgulho e apego às tradições escondem algumas coisas sérias.

Primeiro, esse orgulho é muito Recife olhando para seu próprio umbigo. Já que, no geral, os olhos se fecham quando o foco é o interior do estado. Só muito recentemente o interior se tornou digno de nota. Com raras exceções, o olhar que é lançado da capital em direção ao interior é marcado pelo desdém, pela arrogância.

Segundo, esse orgulho classe média, não se estende com tanto vigor às classes subalternas. O trabalhador braçal, aquele que engorda as estatísticas da violência, atropelamentos, péssimas condições de vida, ainda é tratado como um escravo dos tempos de engenho. Basta perceber que, na grande maioria dos lares pernambucanos, a mucama "pau para toda obra" ainda existe, confinada ao quartinho- senzala e às regras da patroa. Basta um passeio ao parque da Jaqueira, nas manhãs de domingos, para vê-las aos montes, uniformizadas, cuidando dos sinhozinhos e sinhazinhas.

Terceiro, tanto apego às tradições e raízes parecem ter origem numa grande resistência à velocidade e mudanças da contemporaneidade. Ou talvez num desengano em relação ao futuro. Não é por acaso que o pernambucano por adoção Ariano Suassuna é cultuado com pompas de semideus. Com seu discurso espetacular, xenófobo e retrógrado, cativa multidões. Multidões que não sabem que nenhuma obra gera a si mesma. Que toda grande obra (como a dele é, sem dúvida) bebe em outras fontes, é devedora de várias referências.

Sim, o pernambucano médio é xenófobo e preconceituoso. Cultua suas grandezas, mas tem medo, raiva, desconhecimento em relação à grandeza do outro.

Cultua João Cabral sem nunca ter lido João Cabral. Suspira por Pasárgada sem nunca ter ido a Brejão. Ignora os números extremos da violência contra a mulher. Ignora o absurdo de músicas de duplo sentido tocando em parquinhos infantis. Cultua o machismo como a uma religião fundamentalista.

O pernambucano médio não anda nas ruas de sua capital, porque as ruas, sem diversidade, sem o colorido e polifonia das muitas culturas e visões de mundo, não transmitem segurança (ver matéria da revista Continuum). Talvez por isso, o governo municipal ache que semáforos são desnecessários. Não sei de qualquer pesquisa, mas uma estatística talvez revelasse o baixo números de faróis em ruas e cruzamentos na cidade do Recife em comparação a outras grandes capitais. Como a classe média é motorizada e não as ocupa de fato, as ruas são precárias para quem as usa, tanto em questões ligadas à segurança como em aspectos práticos como sinalização. Infelizmente, a rotina não é um sábado de carnaval, e a alegria que toma as ruas sob a forma do Galo da Madrugada não é uma regra.

Sou pernambucana e e tenho vergonha desse orgulho estúpido e burro que, como uma viseira, impede a autocrítica e, conseqüentemente, o crescimento, a superação. Tenho vergonha do péssimo atendimento do comércio. Da lentidão das decisões para o bem comum. De, no bairro em que moro, constar serviço de coleta pública seletiva, o que, na realidade, não existe. De todas as ruas do Recife constarem, na Prefeitura, como asfaltadas, o que também passa longe da verdade.

Sei bem que muitos dos problemas que Pernambuco e Recife enfrentam são comuns às outras grandes cidades e estados do Brasil. Não são exclusividade daqui. No entanto, esse "orgulho" cego e prejudicial é bem específico. É "coisa nossa".

Sou pernambucana e tenho orgulho de ser pernambucana, mas por outras coisas, mínimas e sutis e verdadeiras. Coisas que talvez só o meu olhar de poeta dê conta. Outro dia, falo deles. De sua importância, vitalidade. Então falarei também do orgulho que sinto dos pernambucanos excepcionais, que em muito superam a média e a visão fácil e corriqueira das coisas da vida.

13 comentários:

Luciana disse...

Opa!! Falou tudo!

Luciana, pernambucana vivendo há 11 anos longe da família por falta de oportunidade na sua terra, que digamos, nunca me deu motivos pessoais de orgulho.

Sonia A Dias disse...

Pernambuco que se cuide, rebelião na Zona Fantasma não é só coisa do Ademir (Assunção). De longe, pra nós turistas, Recife é um oásis de criação e efervescência cultural. Mas, quem perto está pode ver melhor o que de pior há. Berra mesmo, Mi. É assim que caminha a humanidade! Bj.Sô.

daniel sampaio disse...

Não sou pernambucano, mas pertenço a Pernambuco por ser paraibano. E não trocaria o Recife dos Carnavais e finais de semana pelo Recife do dia-dia. Toda forma, é um debafo o seu de repensar certos orgulhos, que, como beiram ao mais imbecil nacionalismo, tendem ao engessamento individual e criativo. Beijos.

daniel sampaio disse...

digo, desabafo... rsrs. Outros beijos.

Mariana Mesquita disse...

Quero muito ler seu novo/prometido post. Beijo, saudade... Cadê você, minha vizinha?

Tatiana disse...

Tchê, ainda bem que eu sou gaúcha!

Marta disse...

Querida, era sobre esses "pernambucanos médios" que eu te falava outro dia. Sou recifense, pernambucana não praticante e muito apaixonada pela minha história. Para mim, o óbvio: o lugar que a gente nasce é a origem, nunca o fim. É disso pra frente...
Beijo,
M

Equiser disse...

Mi Sou Pernambucana e vejo as coisas que você percebe na cidade que sempre morei. Porém sei que somos marcados por processos constantes de opressão e lutas populares... Numa sequência de "repetição",desafios e descobrimentos. E para mim uma das descobertas é de que como diria Milton Santos A cidade são as pessoas e o que elas fazem neste território.Os dados dizem muito sobre a realidade de opressão em que vivem os Recifenses não é atoa o primeiro lugar em violências segundo o censo do IBGE de 2000 Recife tem uma pop de 1.422.905hab, sendo que 33,4% dos domicílios ou tem renda inferior a 1 salário mínimo ou não possuem rendimento;enquanto 6,6% dos domicílios tem renda superior a de 20 salários mínimos. A desigualdade esta para a cidade assim como a cidade se apresenta para as pessoas.

Beijos!!!

Depois tento escrever mais sobre o sentimento e percepção desta terra tão contraditória.

Anônimo disse...

Olá, Micheliny

Bom que tenha retomado o blogue, e com que verve e objetividade!

Acho que lhe disse que tenho sangue pernambucano e orgulho de suas tradições; estas, porém, é preciso apontar com toda precisão e verve, sempre têm servido aos aparelhos ideológicos para camuflar interesses. Pernambuco como imagem do Brasil, e do mundo.

Por outro lado, aproveito para convidar-lhe a falar do "verdadeiro" orgulho de ser pernambucana para o Projeto Valise 2008, orgulho por essas "coisas mínimas, sutis e verdadeiras."

(Re)Veja em http://aqueiva.wordpress.com/

sobretudo na postagem do dia 19 de julho, Valise como medida do mundo, como está o projeto.

Sem dúvida, a sua será uma valise bem interessante, trazendo coisas que sem dúvida o seu olhar e sensibilidade de poeta dará conta.

Marco Aqueiva

Dr. Estranho disse...

ótimo texto. assunto velho e revirado. e sempre pertinente. sou um pernambucano exilado e por causa dos argumentos do texto dá uma preguiça de voltar... faça-me um abraço no xico lá em pesqueira. bjos e muita luz, dr.e.

Pernambucano disse...
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Micheliny Verunschk disse...

Caro "pernambucano", não costumo responder a trolls, mas por seu estilo de escrita posso apostar que conheço você!

abraços!

Micheliny Verunschk disse...

Ainda ao caro "pernambucano": antes de sair xingando quem quer que seja em um blog pessoal, saiba que alguns blogs, como o meu, registra o IP (a identidade) do seu computador. Para reconhecer o seu, clique no icone IP2Map aí ao lado. Pois é, na era da internet, o anonimato não tem vez. Eu sei o seu IP e qual foi a via pela qual entrou para acessar meu blog (é só clicar no contador)Da próxima vez, mostre a cara, não tenha medo, podemos dialogar, quem sabe.