24 julho, 2008

uma mulher, uma leitura, um romance em processo


Conheço Sylvia Plath há pouco tempo. Mas sua poesia cadenciada, seu exercício de desespero traduzido em poemas que são tão confessionais quanto elaborados (e notem que essa palavra contêm uma outra: labor) e seu rigor me encantam, me fascinam. Um dos poemas de que mais gosto é Crossing The Water (Travessia, mais abaixo, em tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça):

Black lake, black boat, two black, cut-paper people.
Where do the black trees go that drink here?
Their shadows must cover Canada.
A little light is filtering from the water flowers.

Their leaves do not wish us to hurry:

They are round and flat and full of dark advice.

Cold worlds shake from the oar.

The spirit of blackness is in us, it is in the fishes.

A snag is lifting a valedictory, pale hand;

Stars open among the lilies.
Are you not blinded by such expressionless sirens?
This is the silence of astounded souls.

(Lago negro, barco negro, duas pessoas de papel picado negro.
O que as árvores buscam de beber que não encontram aqui?
Suas sombras podem cobrir o Canadá.

Uma luz leve dissolvida pelas flores d’água.
Suas folhas não desejam nossa pressa:
Curvas e lisas e cheias de negros avisos.

No rastro dos remos, mundos de gelo.
O espírito do negro está em nós, nos peixes.
Um tronco podre flutuando, pálido adeus;

Estrelas se abrem entre lírios.
Essas sereias inexpressivas não te cegam?
Esse é o silêncio das almas atormentadas).

O balanço de rio a, sua escuridão metaforizada nas figuras recortadas em papel, sua referência indireta ao Letes e à barca de Caronte o faz, para mim, um dos poemas mais bem-acabados da autora de Ariel (uma obra-prima, também).

A Sylvia suicida também me fisga. Assim como o suicídio de sua rival amorosa, Assia Wevill. Uma história trágica, maluca e intensa que mereceu uma interessante resenha da jornalista Marina Della Valle, em Cronópios, há algum tempo.

Quem acompanha esse blog desde o princípio sabe que estou escrevendo um romance cuja temática gira em torno da "morte escolhida". Não desisti dele e estou para começar o oitavo capítulo. É um trabalho difícil para mim exercitar a prosa. A poesia é meu habitat natural e embora seja difícil também, transito com mais desenvoltura por ele. A temática do romance é espinhosa também. Dolorosa, para ser mais exata. Não há como não lidar com as perdas pessoais e com as várias mortes que me habitam no trato com esse universo. Mas estou escrevendo. Continuo.

Num dos capítulos, um médico legista tem que lidar com a queda de Ásia, sua gata de estimação, do 5º andar onde moram. Ela sobrevive. Lida também com a exumação da personagem principal, Teresa, uma suposta santa suicida. Ele, Felipe C., neurótico com a queda, apesar de ter colocado rede de proteção nas janelas do apartamento, sempre fecha as janelas ao sair. No fim do capítulo, a ironia, e, digamos "homenagem" a essas (e outras) mulheres que optaram pelo ato extremo:

A primeira coisa que fez ao chegar ao apartamento, foi soltar a gata. Depois pegou uma tesoura na escrivaninha e cortou todas as redes de proteção. Pensou que poderia dar um novo nome a ela . Anne, Aída, Ana Cristina, Alejandra, Amelia. Sylvia. Mas desistiu, Ásia sempre fora o nome perfeito. O nome dela. Dava-lhe um alívio imenso vê-la tão bem, sem seqüelas, ronronando entre móveis, deitando-se, senhora do mundo, em sua cama, seu colo, seus livros. Ásia nunca pulou da janela e viveu longos e felizes 47 anos, muito acima da média de vida dos gatos.

Salve, bem-aventurada Teresa!

4 comentários:

Sonia A Dias disse...

voltou bem o Ovelha. também tenho uma predileção pelas mulheres, pela escrita, pelo desespero descrito. Silvia é ótima, você vai amar. chegou um tempo que eu me achava ela , mas assim como também já me achei em Virgina W, em Orides Fontella, em Hilda e tantas outras poesias. bom o tema do teu livro. também escrevo, bastante. embora meu blog exponha mais minhas telas dos que minhas letras, a noite deito horas de poemas (sujos) e guardo-os todos na gaveta. há 2 anos comecei escrever um livro sobre uma morte sob encomenda. é difícil demais construir frases perfeitas, personagens inimagináveis. qdo lemos muito nos tornamos exigentes demais e um personagem não pode ser raso, e um tema não pode ser raso, e um capítulo não pode ser pouco... guardei um pouco a expectativa. no dia que comecei a escrever fiquei uma semana digitando ... 30 páginas e daí eu descobri que não gostei do que li. está tudo aqui na minha cabeça, com uma força que assusta mas as palavras parecem tão frouxas... não traduzem a amplidão e complexidade da personagem "A dama do poço". pois é, escrever é um parto. as vezes, o bebê nasce logo. às vezes, descobrimos que ele virá somente na hora que ele escolher. então, espero. e, espero que teu livro saia logo... o meu começa assim "... sinto muito Maria, eu te amo, mas vou ter que te matar ... "

A Mesa de Luz disse...

Bom dia! :) Para esse tema, o Bell Jar (Campânula de Vidro cá) é mesmo imprescindível. É sufocante, vale a pena ler. E outra nota: quem me dera ter esse livro de cabeceira! Beijos portugueses.
Ana

jamesson disse...

gostei sobretudo da soma de leveza e velocidade da narrativa. gostaria de ver isso com a crueza da dor em cena.

abç.

jamesson buarque.

Lucius Kod disse...

sou mais um dos suspeitos pela culpa da "morte escolhida". lindos os cacos dakeles teus suicidas, me deu ódio dakele narrador intruso... rs. estou d volta tb, menos morto. mas nem tanto vivo.