05 março, 2007

o meu filme





Meu filme começaria com uma tomada áerea do Atlântico. De cima, se veria apenas um navio minúsculo. A câmera iria se aproximando, se aproximando, até chegar a um homem, de quem se veria só as costas e se perceberia que estava lendo um jornal muito amarrotado.

Um pouco mais de tempo. Um pouco mais de mar. O navio se aproxima de um porto. Quando o navio atraca, os passageiros descem e aquele homem também. Mas ele é o último (ou um dos últimos) e desce lentamente. Ainda não se vê o seu rosto. Mas o espectador percebe que ele olha tudo com atenção. Quando ele finalmente coloca o primeiro pé no chão, a câmera percorre seu corpo de baixo para cima até chegar em seu rosto. Sincronicamente uma voz em off diz : "Aqui o mar acaba e a terra principia ".

Quem é ele? Fernando Pessoa? Não. Ou sim. Ele é Ricardo Reis.

Só então teríamos música. Uma viola, apenas ela, chorando um fado e os passos de Ricardo Reis ecoando no Cais de Alcântara, como se apenas ele caminhasse por ali.

Meu filme seria "O Ano da Morte de Ricardo Reis", de José Saramago.

Na trilha, Bethania, Amalia Rodrigues, Cesária Évora, Madredeus, algum conjunto de guitarristas de fado.

Não pensei em atores, pois não conheço atores portugueses. Seria preciso fazer testes.

O grande desafio seria não perder a polifonia do romance. Então, penso que Camões, Eça, Borges, Camilo Pessanha (entre os tantos outros) fariam aparições durante o filme. Seriam fantasmas circulando por Lisboa, flaneurs com um brilho ou algo que os destacasse.

Outro desafio seria amarrar o viés histórico (ditaduras de Franco e Salazar, entre outras "efervescências" do mundo em 1935) e a literatura. Saramago faz isso bem. Transpor para a tela é que são elas. Acho que um realce no papel do marinheiro irmão de Lídia poderia dar conta disso. Eu o tornaria mais próximo de Reis.

Esse seria o meu filme. Não precisaria de outro, embora me agradasse refilmar vários, como "A Peste", por exemplo.

Um comentário:

Edson disse...

taí, bom projeto para um filme. o mais difícil é o começo, a primeira tomada, o primeiro fotograma. isso vc já tem, o resto fluirá como um sopro.
ah, e algum dinheiro pra lhe dar garantia de conseguir um belo português para o papel.

abraço,
edson