27 setembro, 2011

Trajeto (poema em processo)




Maçã.
Velhos que se falam

em
uma língua incompreensível.
Três quilômetros de paredes descascadas:
Outra cidade.

Palavras.
A casa rosa
com platibanda branca
,

.

o

O
rio prenhe de embalagens coloridaslixo,.

O
meu pai
me acenando noutra plataforma.

Poema.
A lembrança do poema,
o reconhecimento do poema
,
a sua perda.

Velocidade em espiral
:
perfume barato
,
a casa rosa
,
crianças brincando num quintal
,

camiseta vermelha
a minha vida num quadrado mágico.

Velocidade em espiral
:
a língua
dissoluta

,
o filho morto da minha avó
na próxima estação
,

a minha avó,
arames farpados nos muros
como trepadeiras

(o

o
burburinho do trem).

Poema.
O cheiro do poema.
O poema sujo de carne.
O vidro embaçado
do poema
.
Seus nervos expostos.



Poema.
Uma caixa de madeira ordinária

coberta

forrada
de flores
e tecido de algodão.

A

Uma
fotografia de alguém
que parece ser eu.
Tijolos vermelhos e brancos.

Velocidade descendente
.

:
O amigo sem
o
nó na garganta
,
o amigo luminoso horas antes
,
o amigo dançando na memória.

Velocidade descendente
:

.
A sua pele sobre a minha pele
,
os seus cabelos alinhavados aos meus
,
a cicatriz me atravessando.

O poema.
A voz inequívoca do poema.
O gosto de sêmen do poema.
O ritmo
a perda
do poema
.

O meu avô na outra margem.

O meu pai na outra margem.

Eu.
A cidade cinza

contra
o verde quase impossível
.

a

A
mulher grávida
andando por sobre o lixão
.

a

A
lua,como o sorriso doe um gato.

Aceleração contínua.
Velocidade em espiral.
Talvez eu na próxima parada,

Vi

vi
são do último trem subindo ao céu
num livro muito velho.

Aceleração.

Desaceleração.


Repouso

Tudo parando
.

Cuidado com o vão entre o trem e a plataforma.

4 comentários:

Wilson Torres Nanini disse...

Somos uns privilegiados por vc compartilhar conosco seus métodos. Acompanhar a gênese do poema é interessantíssimo, uma aula surpreendente.

Deveria escrever um livro dessa forma, uma cartilha poética!

Abraços, mestra.

Geraldo de Barros disse...

gosto de "espiar" a construção dos poemas, ainda mais assim todo cheio de riscos :)

"Cuidado com o vão entre o trem e a plataforma", isso é ótimo!

leio: no vão entre o trem e a plataforma cabe toda uma vida - não só aquela que o trem leva e traz mas aquela que te espera em alguma estação ainda não inaugurada: cuidado. :)

viajei, gostei muito.

beijos

Alessandra S. Cantero disse...

O processo reconhecimento do poema forjado do trabalho de unidade das imagens (aparentemente) dispersas da memória. O processo reconhecimento do poema reinventando vida no sêmen da palavra. A criação vital do poema. Criação.

Nossa! E como ficaram boas essas palavras tachadas :)

ana dundes disse...

uau!
de tirar o fôlego.
Ritmo intenso
nesse trem de palavras!