08 dezembro, 2009

Sobre escrita, sobre influências

[respondendo ao Geraldo e ao Braz e agradecendo aos dois por "inspirar" essa quase profissão de fé]

Acho difícil escrever sobre o nosso tempo com, digamos, algo que chamarei de linguagem padrão do nosso tempo. Acho complicado escrever uma prosa recheada de gírias e maneirismos para me dizer contemporânea. Não sei se isso é bom ou se isso é ruim, se é um valor ou se é uma desgraça. Sei que sou poeta e prezo muitíssimo cada palavra seja na minha poesia seja nessa prosa recém-inaugurada. Assim, confesso, costumo lixar as palavras, polir as frases, lustrar períodos e parágrafos. Não sei ser de outro modo e acho que nem gostaria.

A palavra é minha matéria-prima, meu bloco de mármore, minha madeira para carpintaria. Trato-a com respeito, mas sem reverência, sem vergonha. Se não for assim não consigo chegar aos pés da minha ambição que é o de construir mundos, dar novos sentidos ao real. Para conseguir isso preciso acreditar que cada palavra, cada espaço em branco, cada vírgula está no exato lugar onde deve estar.

Assim, tenho minhas influências e não as nego, nem poderia. Para citar algumas, João Cabral, Osman Lins, Sophia de Mello Breynner Andresen, Ezra Pound, Saramago. Mas são tantas que, de fato não poderia enumerar. Algumas mais antigas, outras mais recentes como Sebald. Sou uma antena, tenho raízes caminhantes e a palavra me encanta.


Como me foi pedido, falarei um pouco de Osman Lins, este que representou um grande encontro em minha vida. Ou reencontro. Já havia lido outras coisas suas, mas depois de Avalovara resolvi que queria escrever com mais afinco romances, novelas, essa coisa de "prosear". Ele tem me dado régua e compasso nessa nova vertente do ofício. É um mestre, um grande escritor, que como ninguém dominava os labirintos da narrativa de fôlego. Por isso, ele é meu Pastor e nada me faltará...

(perdão pela demora, minha vida está um pequeno caos em busca de organização, mas sem perder o bom-humor, porque ele há que ser uma bússola)

7 comentários:

Geraldo de Barros disse...

Micheliny, esse seu texto foi uma das coisas mais lindas que eu já li sobre o fazer poético. Não só pela clareza, lucidez e firmeza no trato com palavras mas principalmente pela sua honestidade como o que faz e com o que acredita.
Do que eu conheço dos seus escrito sabia que sua resposta não seria em outra direção. Só quero te parabenizar e dizer que realmente nosso tempo é de uma complexidade tamanha que às vezes assombra, acredito também que não será uma "linguagem padrão de nosso tempo" que será capaz de a revelar em toda sua plenitude nem que a literatura tenha essa função ou papel, mas posso arriscar em dizer que o nosso tempo precisa de escritores como vc, é uma grande poeta, conquistou minha admiração e respeito. Sou agora mais do que sempre seu fã.

Um abraço,
Geraldo.

Jupí do Brabo disse...

Micheliny,
aqui é Glauber,( Um amigo de Sertânia) nos conhecemos na viagem
para o festival de literatura em arcoverde, viajei com Marcelino, JMB, Você, Theo e Eu. mais esse arrodeio todo era só para manter contato, procurei achar algum e-mail seu, e não encontrei. um abraço,
e fica tambem um cantinho onde jogo umas ideias minhas http://jupidobrabo.blogspot.com/

deixo meu E-mail: glauber_amaral@hotmail.com,
e um abraço quente quanto o nosso
Ser-tão-só e resistente na literatura.

desculpa aparecer assim...
fui

Braz disse...

Micheliny, parabéns pelo seu posicionamento literário!

e um bom natal!

Um abraço,
Braz

Wellington de Melo disse...

Compartilho esse teu respeito pela palavra. E acho que, no final, essas vozes que se transformam em letras são nossas vozes reverberadas. Nossa letra é tão contemporânea quanto nossa vivência do mundo, nossa visão.
Beijos.

Wellington de Melo disse...

Por sinal, lindo o trecho do romance que leu. Gravei. Segue o link:

http://wellingtondemelo.com.br/site/2009/12/micheliny-verunschk-na-balada-literaria/

Ribeiro Halves disse...

Na proesia de tuas palavras sobre a palavra, compartilhando contigo mesmas in-fluências, eu tão antigo, deixo contigo algumas palavras de meu Claro Grifo:

"As compsições poéticas são escritos da saudade. São engenhos da memória e desejo."

Luisiana disse...

Olá
Encontrei seu blog por acaso,sou prima em segundo grau de Osman Lins, inclusive minha mãe foi criada com ele e temos ótimas lembranças contadas por ela , dos bons tempos de primos-irmãos.Fiquei muito, mas muito feliz com a sua referencia a ele e por sua devoção ao mesmo.
Um grande abraço e felicidades!
Luisiana Lins Lamour