08 junho, 2009

Platão estava certo...




os poetas são uma ameaça à República e à ordem estabelecida, a julgar pela recente caça às bruxas que retirou das bibliotecas escolares de São Paulo obras de Manoel de Barros, Tim Burton, e ainda uma coletânea que escandalizou as professorinhas por conta de um poema de Joca Reiners Terron.

Seguindo São Paulo, a secretaria de educação de Santa Catarina retirou de suas estantes o romance Aventuras Provisórias, de Cristovão Tezza.

Erotismo, incitação a violência e pornografia são algumas das justificativas que os governos dão para o recolhimentos dos livros.

Ora! Se os maiores motivos são esses, que tal recolher 98% da literatura ocidental dos últimos séculos? Poderíamos começar pela Bíblia, com aquele amontoados de traições, infidelidades, estupros, fratricídios, entre outros maus exemplos para a juventude.

Poderíamos também fazer grandes fogueiras em praças públicas com os livros de Jorge Amado, Hilda Hilst, Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz, só para citar alguns dos maus elementos nacionais.

Poderíamos até incluir esse espetáculo como atração da Virada Cultural. Poderia se chamar Queimada Cultural, à falta de criatividade para um nome melhor ou menos autoreferente.

Enfim, poderíamos feito patinhos otários cair na boca do grande crocodilo e queimar dinheiro público esturricando poetas e prosadores, sem distinção, pois, com certeza isso dá muito menos trabalho que EDUCAR.

Educar professores e técnicos em educação analfabetos funcionais que leem mas não sabem contextualizar e menos ainda transpor os frutos da experiência literária para a sala de aula.

Educar crianças e adolescentes de modo a se tornarem leitores críticos e poderosos.

EDUCAR a sociedade para a leitura do mundo ao seu redor.

Enquanto a grande queimada não vem, continuemos a prensar livros que ensinam que letra de música popular é poesia e a nos lamentar pelo baixo nível cultural do brasileiro. Continuemos a nos pautar pela Veja e similares como bússola do ideario nacional. Continuemos a dar uma educação carne de terceira para nossas crianças e jovens. Pois é sempre mais fácil ter medo da literatura do que das manchetes dos grandes jornais.

De minha parte, que fui apresentada ao mundo das tensões, tesões e contradições da alma humana pelas mãos da minha mãe que leu Dom Casmurro para mim quando eu tinha entre 9 e 10 anos de idade, dou vivas ao Marquês de Sade!

E viva eu e viva tu e viva o rabo do tatu, não é mesmo?!

Abaixo, o poema de Joca e links para mais notícias sobre essa estupidez.


Manual de auto-ajuda para supervilões

Ao nascer, aproveite seu próprio umbigo e estrangule toda a equipe médica.
É melhor não deixar testemunhas.

Não vá se entusiasmar e matar sua mãe.
Até mesmo supervilões precisam ter mães.

Se recuse a mamar no peito. Isso amolece qualquer um.

Não tenha pai. Um supervilão nunca tem pai.

Afogue repetidas vezes seu patinho de borracha na banheira,
assim sua técnica evoluirá.
Não se preocupe. Patos abundam por aí.

Escolha bem seu nome. Maurício, por exemplo.

Ou Malcolm.

Evite desde o início os bem intencionados. Eles são super-chatos.

Deixe os idiotas uivarem. Eles sempre uivam, mesmo quando não
podem mais abrir a boca.

Odeie. Assim, por esporte.
E torça por time nenhum.

Aprenda a cantar samba, rap e jogar dama. Pode ser muito útil na cadeia.
Principalmente brincar de dama.

Ginga e lábia, com ardor. Estômago em lugar de coração,
pedra no rim em vez de alma.

Tome drogas. É sempre aconselhável ver o panorama do alto.

Fale cuspindo. Super-heróis odeiam isso.

Pactos existem para serem quebrados. Mesmo que sejam com o diabo.

Nunca ame ninguém. Estupre.

Execre o amável. Zele pelo abominável.

Seja um pouco efeminado.
Isto sempre funciona com estilistas.

[ in, "Poesia do Dia - Poetas de Hoje para Leitores de Agora", org. Leandro Sarmatz, Ática, SP, 2008 ]

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blog do joca

5 comentários:

Bea - Compulsão Diária disse...

Que maravilha!Execre o amável. Zele pelo abominável!
GEnial, genial.
Exclenteno blog , o poema, a reflexão.
Adorei!
Sem fôlego, depois do poema

Wagner Marques disse...

Você foi fantástico!
A miséria cultural de nossos educadores é a parcela podre de nossa educação!

Graça Carpes disse...

Hpócrita quanto a sociedade dos aristocratas podres; assim é a educação.

Salve a POESIA!
:)

Marta disse...

gênero, número e grau contigo.

juan-o-salazar disse...

queimem a educação!