08 abril, 2009

Falando em Dorotéia

Dorotéia dorme. Sonha com bonecas, panelinhas de barro, um vestido azul de bolsos amarelos. As filhinhas atendem pelo nome. Maria, Meninô, Viridiana, nomes de princesa para bonecas de mesmo rosto: olhos pretos de nozinho de linha, boca vermelha de risco-sorriso. Nas panelinhas faz um cozido, um mingau, um manjar qualquer para suas filhinhas. Dança pela casa com o vestido azul de bolsos amarelos. Dorotéia dorme e sonha e mesmo acordada, ela sonha. Com as bonecas-filhinhas, com as panelinhas fartas de comida, com o vestido azul rodopiando. Dorotéia dorme e sonha com um moço sem rosto, seu princípe, seu amado, seu marido. Ele é negro como a noite, tem estrelas nos olhos, uma lua prateando no sorriso. Dorotéia dorme. 

Na distância da estrada seu pai se aproxima, os cinco irmãos também, os jagunços juntos . Em cada mão, um relho. Em cada relho, uma mão. Em cada cinta, uma faca. Em cada ombro, uma arma. Dentes ferozes. 

Dorotéia dorme e no dormir canta uma canção para suas filhinhas. O vestido azul rodopia como um balão. Seu homem está na rede e vai de um lado para o outro. De um lado para o outro. As bonecas brincam de roda. O marido se vai levantar. A porta se abre. Pela última vez a porta se abre. Dorotéia dorme.

conto do meu livro Uma Lua de Loucos que, talvez, deixarei para sempre inédito.

3 comentários:

Marta disse...

que bom é ler você...
bjo,
m

Zé Paulo disse...

"conto do meu livro Uma Lua de Loucos que, talvez, deixarei para sempre inédito."

Isso!...que haja bons motivos para se deixar de amamentar os filhos...
Beijos com saudade.
Zé Paulo

Lucius Kod disse...

ingratidão.

é este o teu nome de louca, rainha má para com seus súditos.

reverencio-te. como dantes.

e beijo-te a face mais uma vez materna.