28 abril, 2009

Deus como problema

li esse texto no blog do escritor português José Saramago. Reproduzo aqui apenas o trecho final. Para ler o texto na íntegra vá até O Caderno de Saramago.


Não há amor nem justiça no universo físico. Tão-pouco há crueldade. Nenhum poder preside aos 400 mil milhões de galáxias e aos 400 mil milhões de estrelas existentes em cada uma. Ninguém faz nascer o Sol cada dia e a Lua cada noite, mesmo que não seja visível no céu. Postos aqui sem sabermos porquê nem para quê, tivemos de inventar tudo. Também inventámos Deus, mas esse não saiu das nossas cabeças, ficou lá dentro como factor de vida algumas vezes, como instrumento de morte quase sempre. Podemos dizer “Aqui está o arado que inventámos”, não podemos dizer “Aqui está o Deus que inventou o homem que inventou o arado”. A esse Deus não podemos arrancá-lo de dentro das nossas cabeças, não o podem fazer nem mesmo os próprios ateus, entre os quais me incluo. Mas ao menos discutamo-lo. Já nada adianta dizer que matar em nome de Deus é fazer de Deus um assassino. Para os que matam em nome de Deus, Deus não é só o juiz que os absolverá, é o Pai poderoso que dentro das suas cabeças juntou antes a lenha para o auto-de-fé e agora prepara e ordena colocar a bomba. Discutamos essa invenção, resolvamos esse problema, reconheçamos ao menos que ele existe. Antes que nos tornemos todos loucos. E daí, quem sabe? Talvez fosse a maneira de não continuarmos a matar-nos uns aos outros.

3 comentários:

adelaide amorim disse...

Muito lúcido, não?
Vim aqui pelo Héber Sales, e foi ótimo descobrir seu blog.
Abraço

disse...

ADOREI!

rubeneide disse...

tudo q doi são verdades estabelecidas.Em ser tudo movimento é que fascismo ,nazismo,...passaram e o vaticanismo passará. O tempo que virá "será ético ou não será" A conduta humana há de ser repensada.
Ótimo blog.Saudades.