15 outubro, 2008

dois poemas


O primeiro, do livro quase pronto ( se é que um dia acharei que um livro meu estará "pronto"), A Cartografia da Noite:

Cerco

Uma palavra
espreita
e se esgueira
entre todas as frases
não lidas.
Lambe,
com um longo l,
suas próprias letras,
desde as vogais atentas
às consoantes hirsutas de frio.
Salta as armadilhas do poema.
Escapa
a todo laço,
dedos,
canetas,
memória,
dicionário.
Estala,
folha seca.
Mineraliza-se,
sólido concreto.
Respira ofegante
como quem se afoga
ou antecipa o bote.
Transforma-se
em inúmeros bichos
e foge.

E esse outro, do livro Geografia Íntima do Deserto (Landy 2003)

Um Canto Obsessivo

O que habita este envelope fechado?
Um animal ou uma máquina
que engendra surpresas mal-queridas?
O que se escuta são risadas,
o trabalho de uma usina,
ou serão garras que rasgam papéis,
mapas,
festas gregas em que se quebram pratos?
Que mecanismos trabalham nesta carta?
Seu tic-tac é de bomba,
de conta atrasada,
de contagem regressiva?
Talvez intimação da justiça
ou uma ação de despejo da própria vida.
Talvez nada,
só um convite para a liquidação
da loja mais próxima
ou o coração de um indigente
pingando ainda,
material didático para a aula de anatomia.
Talvez nada,
só uma carta,
papel contra papel,
uma rosa desfolhada
e um amontoado de letras desconexas.
Notícias,
um pedido que morre,
a graça que fica,
a guerra que arde no íntimo amigo.
Talvez tudo,
um bicho traiçoeiro e pardo e mudo
ataviado de selos e outros enfeites,
mas muito ágil em cravar os dentes,
ele todo um ríctus de espinhos
que desfibra a vítima.
Que palavras guardam este cofre?
Que susto de presente?
Que bote?

2 comentários:

Cícero Soares disse...

"Lambe, / com um longo l, / suas próprias letras..." e "O que habita este envelope fechado?" me evocaram - estranhamente, já que em semântica, propósito e status pouco resvalam - uma letra da PJ Harvey: Can't you see / In my handwriting / The curve Of my G? The longing..." (Ou The long N, o que dá no mesmo afinal.) Ou vai ver que essa associação pouco apropriada foi culpa mesmo daquela luazinha descentrada e... (Hum, ó imberbe, por onde andas? É, acho que ando eu é precisando substituir a regência desse stasis in darkness que não anda nem desanda.)

Ah, queria só ter dito sorte no seu retorno à desvairada paulicéia - que afinal alguém aqui anda precisando de bons fluidos e reversos, né? (E como disse não só, mas demais: chega de andar de lá pra cá, viu?! Que se há alguém aqui com essa vocação de andar em círculos, esse alguém aqui sou eu...rs.)

paulo de toledo disse...

oi, mi.
vim tirar as teias da mediocridade e do tédio de cima de mim.
ainda bem q há espaços como o seu!
baci